A crise da modernidade: a educação dos sentimentos
Introdução
Vamos partir de um pressuposto: o que conhecemos como “Modernidade” ou “Projeto da Modernidade” está em crise há mais de uns vinte anos. De certa forma, encontramo-nos numa espécie de beco sem saída: O modernismo apostou na razão, na categoria, no pensamento lógico e conseguiu trabalhar bem o universal (ou seja, os conceitos objetivos). O pós-modernismo percebeu que esse modelo necessariamente deixa de lado as diferenças, as nuances, o concreto, e apostou no sentimento (ou seja, a relatividade das emoções) . Agora estamos sentindo os efeitos da “diferença `a ultrança”: não há mais diálogo possível, não compartilhamos nenhum ponto em comum e cada um reivindica o direito de fazer o que bem entender, sem vincular-se a nenhum projeto comunitário…Por isso, a questão que vamos discutir aqui é: o que significa educar o homem?
Breve resumo histórico
Os filósofos, pensadores e pedagogos não tiveram problemas em lidar com os conteúdos, com a matéria informativa, com os dados, que precisariam ser ensinados (os afluentes dos rios, as equações de segundo grau, o primeiro e o segundo triunvirato de Roma…) mas nem sempre falaram o mesmo idioma quando se chegava à questão de o que fazer com os sentimentos, como entrar no interior do homem ou como provocar uma reforma no seu interior para que, de fato, se possa ter um bom homem ou, como hoje costuma-se dizer, um bom cidadão.
De certa forma, os modelos universitários, a partir do XIX, podem ser resumidos em dois grupos:
- modelo racionalista. Educação é informação, conteúdo, erudição. O conhecimento é algo agregado: quem conhece mais coisas, sabe mais. Daí a importância dos conteúdos e cargas horárias e grades…
- modelo humanista. Educação é formação, despertar habilidades, aperfeiçoar virtudes, aptidões. Não impota saber muitas coisas, mas muito profundamente, de forma integrada. Estar preparado para o mundo como um todo. Daí a importância dos hábitos, dos procedimentos, das habilidades.
No mundo pós-moderno em que nos encontramos esses dois modelos também estão em crise: diante de um conhecimento cada vez mais especializado e fragmentado, tende-se a ver a realidade como fragmentada e supomos que se trata de acumular conhecimentos e conteúdos, somá-los e juntá-los e teremos o conhecimento do todo…
Diante da questão de hábitos, virtudes e habilidades, num mundo fragmentado e relativizado, perguntamo-nos: quais, e não temos resposta. Tendemos a teorizar sobre os hábitos, quando eles são práticos, e descuidamos os conteúdos, quando eles são também base da formação, porque é sobre eles que se constroem os hábitos do ensino e da aprendizagem. Estamos, de fato, num beco sem saída.
Esses dois modelos produziram duas práticas de ensino e de vida social: o ensino através de códigos de leis de conduta, do que deve e não deve ser feito. Ou o ensino que provoque e desperte o auto-convencimento do que deve ou não deve ser feito.
A questão decisiva que precisa ser entendida antes de continuar é: a Modernidade não entende, nem aceita que o o ser e o dever-se implicam-se mutuamente. Hoje temos uma imensa dificuldade em perceber que o que uma coisa é e o que deve ser são realidades entrelaçadas e interdependentes, precisamente por causa da filosofia cartesiana e kantiana, que fundamentam a Modernidade.
Quando os gregos falavam de natureza queriam expressar não apenas o que a coisa é, mas também a sua potencialidade –o vir-a-ser-, de maneira que algo seria, em ato, uma coisa determinada, mas poderia vir a ser um algo mais ou menos qualificado, dentro de um leque de possibilidades próprios daquele ser. Por isso que a natureza entendia-se como um princípio de operações, de várias operações possíveis.
Isto é de vital importância para entender a a questão sobre a educação do homem. Para os gregos, não se tratava de transmitir informações, tratava-se de despertar e desenvolver suas possibilidades. Tratava-se de educar, mesmo: ducor. O que o homem deve ser não é algo que esteja fora dele, como um conjunto de regras, nem como uma estrutura moralizante que imponha determinadas condutas. O homem tem em si as sementes potenciais do seu aperfeiçoamento, do que deve vir a ser. A tarefa da educação consiste em ir atualizando as potencialidades. Extrair (e-ducare) de dentro do homem aquilo que o homem deve ser.
Apenas os sofistas pensavam de forma diferente. O ensimo podia ser reduzido a técnicas e, portanto, poderia ser transmitido de fora para dentro. A virtude, por exemplo, poderia ser ensinada, da mesma forma que se poderia ensinar qualquer outro tipo de conhecimento: é uma questão de técnica didática. Transmitem-se “normas de conduta”, “regulamentos”, “leis sobre o que deve ou não deve ser feito”. Ensinar-se-ia a ser bom como se ensinaria um cachorrinho a ser fofo. Com castigos e recompensas.
Como se sabe, Sócrates pensava de maneira contrária. O único que seria preciso fazer seria provocar ou propiciar o conhecimento, o cair-em-si. Mas isto parte de um posicionamento prévio sobre o homem e a natureza, que consiste em pensar que o homem tende ao bem, que há uma estrutura interior no homem que lhe faz querer o bem e afastar-se do mal. Mas é uma tendência, ou seja, há muitos obstáculos que precisam ser conhecidos e descobertos e é preciso aprender a saber lidar com eles. Essa a a principal meta deste tipo de educação. Evidentemente, a Modernidade não pensa assim. O fundamento do mundo moderno pode ser encontrado em Hobbes, para quem o homem é o lobo do homem, e para quem o motor de toda e qualquer ação humana é o egoísmo, portanto, a tendência para o mal. Daí a necessidade de um Estado regulador, vigilante e punitivo.
Por outro lado, para Platão, o homem seria bom a partir do momento em que conhecesse em que consitiria a bondade. Contudo, Aristóteles realiza uma crítica decisiva que, de certa forma, marcará a evolução desta questão ao longo de toda a história e, especificamente da história da Modernidade: o importante não é o conhecimento universal acerca do bem, mas saber julgar acertadamente sobre o ato que se deve realizar. Esse juízo é próprio do homem, de o homem como um todo e, portanto, é um juízo que está estreitamente vinculado aos sentimentos (não se pode esquecer que, para Aristóteles, não há nada na inteligência que, antes, não tenha passado pelos sentidos). Por isso, a educação, toda e qualquer educação, passa necessariamente pela educação dos sentimentos. Para Aristóteles, o importante não é que o homem conheça o bem em si, mas que veja o bem-em-si como um bem-para-ele. Toda a ética aristotélica é uma contestação ao princípio platônico de que “os sentimentos são um obstáculo para a virtude” e que “os sentidos e toda a corporalidade dificultam o conhecimento da virtude” (Fedon). De acordo com Aristóteles, a educação do homem é não apenas uma educação teórica, ou prática, mas uma educação sentimental: para agir bem, não é suficiente, para o homem, conhecer os princípios gerais do que seja o bem, mas é necessário que aprenda a gostar desses princípios e da realização desses atos.
Voltando à relação entre ser e dever-ser, não se trata de impor um gosto alheio, trata-se de despertar o gosto, de educá-lo, de desenvolver as potencialidades dos sentimentos humanos. E o ponto mais importante de Aristóteles é precisamente que isto só pode ser ensinado de um único modo: fazendo ver, mostrando. Não se trata de um processo silogístico, nem argumentativo; não se ensina a virtude através de uma aula, mas através do contato visual: o que é verdadeiramente bom tem de aparecer como bom. Aparecer porque precisa ser visto.
Daqui podem ser tiradas, por exemplo, consequências extremamente importantes:
– conhecer as vidas e os exemplos de homens bons e, especialmente, dos santos. Isto foi desconstruído a partir dos anos 60 com a “desmitificação” das qualidades dos heróis.
– conhecer, por meio da oração e da prática dos sacramentos, a vida de Cristo que, para o homem, é o modelo: caminho, verdade e vida. Isto foi deixado de lado a partir da Teologia da Libertação.
– conhecer por meio da literatura, do cinema e do teatro as nuances e as diferenças entre uma boa ação e uma má. Isto foi caindo em desuso à medida que essas artes foram entendidas como “diversão”e não como “formação”.
Os racionalistas modernos não aceitariam as premissas aristotélicas. Partindo do pressuposto teórico de que a razão está separada dos sentimentos, o problema será sempre o que fazer com os sentimentos humanos?
Descartes: “não se inclinando a nossa vontade a seguir ou fugir a qualquer coisa, senão conforme o nosso entendimento lha represente como boa ou má, basta bem julgar para bem proceder, e julgar o melhor possível para proceder da melhor maneira” (Discurso do Método, Terceira Parte).
É por isso que Descartes irá escrever um “Tratado sobre as paixões” e “As paixões da alma” para dizer que é preciso que a alma aprenda a não se deixar guiar pelos sentimentos. Qualquer contato da esfera sentimental-corporal na parte racional-espiritual é um contato perturbador para um conhecimento certo.
A reação contrária a esse excessivo racionalismo está representada por Pascal: “Há coisas tão delicadas e tão numerosas que é preciso ter um faro muito refinado e preciso para senti-las e julgá-las correta e justamente segundo esse sentimento, sem, muitas vezes, poder demonstrá-las metodicamente como se faz em geometria(…) É preciso ver a coisa de golpe, com um só olhar, sem proceder por raciocínio” (Reale e Antiseri, p. 615).
“O coração tem a sua ordem; o espírito tem a sua, através de princípios e demonstrações; o coração tem outra. Não se prova que se deve ser amado expondo por ordem as causas do amor: seria ridículo” (Pensamentos, p. 283).
O começo do racionalismo, base de toda a teoria de conhecimento da Idade Moderna, parte dessa dicotomia: o sentimento não ajuda em nada a conhecer a realidade.
A partir desse momento, a Filosofia estabelece um modelo educativo conteudístico. Formação é igual a erudição. Para conhecer, basta querer conhecer e quem conhece será um bom cidadão: essa será a meta que une a trajetória de Kant, Hegel, a Enciclopédia e o Iluminismo.
Estamos, de fato, num beco sem saída.
A formação”liberal” do homem
C.S.Lewis, no seu livro “A Abolição do Homem”, começa o 1º Capítulo por uma crítica dura contra um livro escrito por 2 professores de Gramática. Esses professores usaram o seguinte exemplo para os alunos: quando estamos diante de uma cachoeira como a cachoeira de Niágara e falamos: “Isto é sublime”, não estamos querendo dizer nada real sobre a cachoeira: “parece estar fazendo um comentário sobre as cachoeiras; porém, de fato, está fazendo um comentário sobre seus próprios sentimentos. O que realmente diz é: tenho sentimentos associados na minha mente com a palavra “sublime”; ou, resumidamente, tenho sentimentos sublimes” (p. 8).
Para dizê-lo de outra forma e não deixar lugar a dúvidas: quando expressamos um sentimento, quando afirmamos o valor de algo, quando estabelecemos um juízo sobre o que sentimos com relação à realidade, p.ex., isto é uma vergonha! acho maravilhoso! parece-me que não vale a pena…Não estamos querendo dizer que as coisas sejam assim ou que seja esse o seu valor real; estamos apenas dizendo ou expressando os nossos sentimentos pessoais diante daquelas coisas ou situações.
Lewis conclui o seu capítulo dizendo que é precisamente assim que começamos a abolição do homem: ensinamos-lhe que não há relação nenhuma entre a realidade que o cerca e os seus sentimentos; que tudo o que diz respeito a sentimentos e valores é algo subjetivo….e acabamos introduzindo a profunda desconfiança de tudo aquilo que cheire a subjetivismo…Assim, finalmente, acabamos com o homem.
Há uma profunda influência kantiana na separação entre razão e sentimento, objetivo e subjetivo, necessário e arbitrário. Aceita-se que tudo o que vem da razão pode vir a ser conhecimento certo porque é verificável, enquanto que tudo o que vem do sentimento, sendo irracional, é arbitrário e não comprovável e, portanto, não serve para o conhecimento objetivo. O sentimento é mais ou menos como um terremoto: um acontecimento físico que pode provocar desgraças, mas que não é lá muito responsável. É, no mínimo, um absurdo. Está no terreno dos fatos da natureza. Contudo, para Lewis:
“A finalidade da educação humana deve ser inculcar no homem aquelas respostas que são, em si próprias, adequadas perante a realidade. É a isto que tradicionalmente se chamou de formação. Quando não se acredita nisto, a única maneira de educar para viver em sociedade é condicionando os tipos de resposta, pois caso contrário poderá se chegar facilmente ao estágio atual onde não se acredita em nenhum valor e onde as respostas emocionais são imprevisíveis” (C.S.Lewis)
Parece-me que a questão que vamos tratar coloca-se no seu devido lugar se tivermos em conta a advertência de Aristóteles na sua Ética a Nicômaco: “Qualquer um pode zangar-se – isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa – não é fácil”.
Estamos tratando com pessoas. Uma pessoa não é um ser objetivo, não é um objeto. É uma união de objetivo e subjetivo, de razão e sentimento, que se desenvolve e se aperfeiçoa, que não está pronto, que precisa ser educado e que tem, por isso mesmo, uma característica essencial: é um ser de encontros, de relações.
Desde o primeiro momento, o ser humano é um ser que se encontra com outras pessoas. O primeiro âmbito é a família. O segundo, é a escola. Se houver um âmbito de encontro, haverá formação, se não, só haverá informação. Se a escola for um âmbito de enfrentamentos, de disputas, de competitividade, de desinteresse e de individualismo, teremos um campo de luta, mas não um campo de encontros.
Qual é a chave da formação? fazer a pessoa cair-em-si, tomar consciência do sentido das coisas, chegar a um auto-convencimento sobre si próprio e o mundo. O importante da educação não é dizer conceitos ou passar fórmulas, mas dizê-los de tal forma que o aluno os compreenda desde dentro, não desde fora. Dizê-los de tal forma que o aluno possa dizer: “ah! está certo! é isso!”. Para isso é preciso dizê-los de tal forma que não pareça estranho, que não soe a algo desligado dele, mas que o vão captando por dentro e que se identifiquem com essas verdades.
Ou seja, o decisivo na educação não é o conteúdo, mas o procedimento.
Temos tendência a objetivizar tudo, incluso o ser humano. Porém, nada do que se relaciona com o homem é apenas objeto. É um campo de possibilidades. Uma caneta nunca é apenas uma caneta. É a caneta de alguém. Isso já levanta um leque de possibilidades e relações. Cada um de nós nunca é cada um de nós. Não somos apenas “corpo presente”. O que se quer significar quando se afirma que o homem é um campo de possibilidades, um âmbito?
Que é um ser de relações, que cria e estabelece relações e que essas relações são de mão dupla, são reversíveis. São experiências com dupla direção. Eu influencio sobre vc e vc influencia sobre mim. Não há oposição nem bipolaridade sujeito/objeto. Há inter-relação.
Eu posso estabelecer uma relação bipolar com a caneta. Eu a uso e pronto. Mas nas experiências reversíveis eu ajo sobre vc e vc sobre mim. Ambos nos complementamos e enriquecemos. Crescemos como pessoas. Eu posso estabelecer uma relação bipolar com a classe. Eu falo e eles padecem. Ou eles se agitam e eu padeço. São experiências lineais, bipolares, objetivizantes. Mas a educação consiste em fazer com que o outro se questione, formule a pergunta que o inquieta, acabe por cair-em-si. E isso só é possível se a aula for uma experiência de encontro, um âmbito.
Isso só é possível quando há sedução, quando cativamos. O aluno que se apaixona pela matemática não se apaixona por uma equação, apaixona-se por alguém que é como ele e que lhe mostra a beleza da matemática. Tornamo-nos responsáveis por aqueles que cativamos.
Quando há encontro se superam as escisões. Podemos estar juntos, e mesmo assim, um fora do outro. Mas se houve um encontro então estamos co-implicados. Nossos corpos estão fora, mas não nossas pessoas. Seus problemas são meus problemas, sua vida é minha vida e vice-versa.
Como é que o mundo ocidental entendeu que se daria esse tipo de educação? Por meio do que se conhece como “educação liberal”ou “educação humanística”. Um tipo de educação que privilegia a arte, e, especificamente, a literatura e todas as formas de narração e de explicitação que nos permitam ver o que é ser humano.
O que ensinar?
Há uma série de atitudes que podem e devem ser ensinadas por aqueles que tenham a função de ensinar. Trata-se de ensinar a ver e a descobrir os verdadeiros valores; trata-se de levar as pessoas a cair-em-si com relação ao que vale e ao que não vale. E isso só se faz se se ensinarem atitudes vitais. E, portanto, só poderá ser feito se houver convivência contínua entre quem ensina e quem é ensinado.
a)Sair de si. Esse é o termo exato da educação (educare é levar alguém de um lugar a outro, no caso, de dentro de si para fora de si). Para sair de si; para não se deixar levar apenas pelos gostos ou opiniões pessoais, é preciso ensinar a abrir canais para compartilhar, para dialogar, para confrontar o que achamos ou sentimos com o que os outros acham e sentem com relação à realidade. È no contato com o mundo do outro e com o mundo da realidade que começamos a enxergar nossos linites, defeitos e acertos. É preciso saber mostrar que um ato concreto é digno ou indigno do ser humano. O terreno do humano não é o terreno matemático ou geométrico. É o terreno do mais ou menos, do essencial e do acessório, do melhor e do pior…..e a distância entre esses dois pólos é sempre uma distância contínua, nunca descontínua. Há várias possibilidades de melhor. O melhor é algo comparativo, nunca absoluto. O absoluto aqui seria o ótimo. E estamos no terreno de várias opções que podem ser melhores e piores. Isso não se ensina de forma teórica, mas prática.
b)para isso é preciso despertar interesses. Quem não tem experiência do bom, dificilmente se disporá a experimentá-lo. E quem não experimentar, não saberá o que é bom. É para isso que está a educação. Se não, quem educará será a vida, nua e crua. É por isso que quem educa tem de ser alguém que saiba motivar. E para isso é preciso que haja relacionamento pessoal, convivência. A motivação não existe se não houver vibração. E para vibrar é preciso estar juntos.
c)eliminar a justaposição entre juízo de valor e juízo de fato: quando se nega valor à educação humanística e se transforma tudo em educação técnico-informativa é porque se está partindo de duas premissas falsas:
– todos os juízos de valor são subjetivos
– todo o subjetivo carece de valor de verdade, ou valor científico, ou objetividade, como quisermos chamar.
Por que se pensa assim? porque pensamos que subjetivo é sinônimo de sentimental, e pensamos que sentimental é sinônimo de irracional e se nega a possibilidade de ter um sentimento racional.
É precisamente o contrário disso que a educação humanística defende: temos dentro de nós o sentimental e o racional, e se dão juntos. Precisamos ser educados para que possamos dar a resposta adequada às coisas que nos cercam: indignar-nos com o que é indigno, entusiasmar-nos com o que é maravilhoso. Ora, isso só acontece quando não se faz essa separação arbitrária entre valor e fato. Os fatos valem. O que é preciso é acertar o valor que damos a cada fato. Isso implica a possibilidade de erro. Mas a educação verdadeira consiste em tomar consciência de si e das coisas e arrepender-nos quando nos enganamos.
Era isso que defendia Ésquilo na trilogia de Orestes: quando em lugar do sono, gotejar uma lágrima de arrependimento no coração do homem, então, mesmo aquele que não quer, consegue chegar à sabedoria.
- d) compartilhar valores elevados. Quando há encontro, há união de interesses para realizar algo em comum, para compartilhar algo. Terra dos homens: “amar não é olhar um ao outro; é olhar juntos na mesma direção”. Amar é dedicar-se juntos a algo valioso.
Atenção: amar não é um sentimento, é ação. É um verbo. Dedicar-se juntos. fazer atos juntos. É do ato, do amor que nascem muitos sentimentos. Mas não podemos confundir as coisas. Para educar é preciso amar. Se não houver amor, haverá informação, mas nunca formação.
Tudo isto são virtudes. Virtudes necessárias para que haja encontro e para que haja formação que é o único lugar onde se pode dar a educação. Virtus, em latim, significa possibilidades, capacidades. Algo que precisa ser desenvolvido. Se eu desenvolver essas virtualidades, significará que estou abrindo espaço para que haja um encontro que nos aperfeiçoe enquanto pessoas. Essas virtualidades vão criar em mim a natureza humana desenvolvida. é a isso que se dá o nome de Ética. O homem não é um ser pronto. A sua natureza não é imóvel. Sua natureza é o que ele é e todas as suas capacidades a serem desenvolvidas. É por isso que Sócrates afirma que a virtude não se ensina, se tem em potência. E por isso que Aristóteles afirma que as virtudes precisam ser vistas, porque são atos. É daí que nasce a verdadeira alegria. A alegria de desenvolver-se juntos, criando algo comum. É aí que nasce o apaixonamento profundo. Esse apaixonamento tem um nome específico: entusiasmo. O entusiasmo é estar mergulhado em algo muito superior a nós próprios. É compartilhar com algo divino. Isso que é divino é o que os gregos denominaram perfeição, justiça, beleza. Quando duas pessoas se encontram nesse âmbito, entusiasmam-se uma pela outra, e ambas pelo que estão realizando em comum. Daí nasce a felicidade porque dá o sentido de plenitude. Quando nos encontramos de verdade, quando nos encontramos com algo ou alguém que é valioso, sentimo-nos cheios, colmados, felizes, porque não precisamos de mais nada. É por isso que a educação basicamente consiste em mostrar os valores elevados, o que sempre foi chamado de ideais humanos.