Torre del Oro iluminada à noite, às margens do GuadalquivirRafael RuizProfessor de História da Unifesp

11 de setembro e os Estados Unidos

Quando Shakespeare escreveu Hamlet, fazendo-o viver num Reino que cheirava a podridão e onde “a virtude devia pedir permissão ao vício”, provavelmente lhe tivesse passado pela cabeça –essa é, sem dúvida, uma das qualidades dos clássicos- que a mesma personagem poderia reviver vários séculos depois.

A peça de Shakespeare comove-nos porque não nos apresenta um grande herói. Apresenta-nos um homem atormentado pela dúvida porque tem de realizar uma vingança; uma vingança exigida pelo espectro da própria vítima,  que fora vilmente assassinada. A dúvida de Hamlet consistia em que não tinha certeza se as coisas se passaram assim mesmo ou não; sua angústia nascia do fato de que, talvez, se realizasse essa vingança que lhe era exigida, poderia estar cometendo uma injustiça ainda maior…

O ato terrorista praticado nos EUA tem uma característica: é anônimo. Visa especificamente não apenas a praticar um ato violento, mas a instaurar um estado de terror. O que provoca terror é a consciência de que não se sabe nada sobre quem o fez, nem por que o fez. E, mais, apavora-nos o fato de que poderá voltar a repetir-se.

Até agora tudo o que foi dito sobre os autores do atentado, embora possa ser verdadeiro, são apenas conjecturas. Aqueles que estamos sob o impacto do terror somos os mesmos que tentamos encontrar explicações…O terror aumenta à medida que o tempo passa e continuamos sem saber nada. Não adianta, para nossa tranquilidade, apenas sentir, como acontecia com Hamlet, que foi por esse ou por aquele motivo; não adianta ter o palpite de que foi este ou aquele grupo…O único que nos pode tirar do terror é a certeza. E, mesmo assim, provavelmente a certeza introduzir-nos-á, de novo, no horror.

Quando Hamlet se defrontou com a dura realidade do que poderia estar acontecendo na Dinamarca, deixou escapar um dos versos mais singelos, dramáticos e intensos de todo o teatro europeu: Oh horror! Oh horror! Quanto horror!

O que ruiu no dia 11 de setembro não foram apenas as duas torres do WTC e uma ala do Pentágono; o que ruiu, definitivamente, foi o padrão referencial do nosso mundo ocidental. Esse padrão que fora costurado nas bases filosóficas de Hobbes e de Rousseau e que se convencionou de denominar “Contrato Social”. Um estilo de vida onde os homens – os homens do mundo ocidental, é claro- “assinam” um contrato, através do qual, todos respeitariam – e o Estado garantiria esse respeito – a autonomia individual, a competitividade, o triunfo do melhor, o afã de auto-afirmação, o lucro, a felicidade como maior posse de bens…Ou, por outras palavras, servindo-nos do próprio Hobbes, um sistema que garantiria o triunfo de quem fosse mais egoísta, ou mais esperto, ou mais astuto, ou mais forte…, dependendo do aspecto sob o qual quiséssemos definir a qualidade do “triunfador”.

Foi isto que ruiu no dia 11/09. Não se pode mais pensar assim. Não é sequer seguro pensar assim. Não dá mais para viver tranquilamente instalados nesta “ilha contraatualista”. Ou mudamos e tentamos ajudar-nos mutuamente, ou provavelmente o estado de terror continuará.

Quando Hamlet tomou consciência de que “os tempos estavam fora dos eixos”, procurou que a mãe “mudasse o coração” e, para isso, tentou convencê-la de que era preciso uma “mudança de costumes”.

Enganamo-nos quando chamamos de Império aos Estados Unidos. O simples domínio –econômico, tecnológico, militar…- não é suficiente para ser “império”. Para “imperar” é preciso criar condições de convivência; estabelecer canais de diálogo; procurar encontrar caminhos de solidariedade entre os múltiplos e diferentes povos que poderiam vir a fazer parte do Império.

Os Estados Unidos não souberam, até agora pelo menos, conviver; souberam, no máximo, co-existir. E não souberam porque o “Contrato Social” sobre o qual alicerçaram os fundamentos da sua sociedade é, por essência e conteúdo, excludente. Excludente porque permite viver, sim; permite existir, sim; mas não cria as condições para estabelecer quase nenhum tipo de diálogo com quem estiver fora desse “contrato”. E o mundo mudou já faz muito tempo. As fronteiras mudaram já há muito tempo. É preciso adotar uma outra forma de pensar que nos leve à conclusão de que nós não podemos viver a não ser convivendo com os outros.

Paradoxalmente, talvez para mostrar que a tolerância e a intolerância não estão nas categorias abstratas de “império”, “religião”, “raça” ou “etnia”, mas no coração dos homens, foram muçulmanos, cristãos e judeus os que estabeleceram no sul da Península Ibérica uma forma de convivência cujos frutos podemos contemplar ainda hoje.

A Escola de Tradutores de Toledo, a versão e difusão das grandes obras da Grécia clássica, o pensamento e o lirismo de um Maimônides, um Avicena, um Averróes ou um Alfonso X, ou as manifestações artísticas, de nítido cunho cristão, como a “Fonte dos Leões” na Alhambra árabe, ou, o Salão de Embaixadores no Alcazar sevilhano, onde se pode admirar como Alá é grande e misericordioso, são provas mais do que eloquentes de uma sociedade pluralista – Al- Andalus- que soube dialogar, soube ouvir, soube trocar experiências, soube, enfim, criar canais para a convivência.

A mensagem que Shakespeare deixou com a sua tragédia –“to be or not to be”- é que o homem age de acordo com o que ele é. Mas a grande dúvida está contida na continuação desses mesmos versos: O que será mais nobre: sofrer em nosso espírito pedras e setas com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja ou insurgir-nos contra um mar de provações e, em luta, pôr-lhes fim?

O que Shakespeare quis dizer foi que a reposta que for dada a esses versos deixará ver a qualidade moral da pessoa. Agora, depois de quatro séculos, os versos de Shakespeare são plenamente atuais. E o mundo aguarda que a resposta que for dada seja, mesmo, a mais nobre.

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