Torre del Oro iluminada à noite, às margens do GuadalquivirRafael RuizProfessor de História da Unifesp

História e jornalismo

Falando de uma maneira genérica, a mídia moderna encontra-se numa situação que poderia ser definida com duas expressões.

Por um lado, o excesso de informação parece estar empenhado em substituir definitivamente a qualidade da mesma. Por outro lado, a facilidade de acesso à informação desperta nos leitores uma demanda de mais e mais explicações.

Essa situação parece agravar-se devido ao que poderíamos chamar de “encadeamento questionativo”: uma pergunta exige uma resposta que exige outra pergunta que exige outra resposta que exige outra pergunta….As coisas se passam mais ou menos assim: Afinal de contas, como é que surgiu o grupo Taleban? Sei, mas como é que eles pensam dessa forma? Certo, mas é isso mesmo que diz o Al-Corão? E, então, quando parece que “a sede inquisidora” ficou satisfeita, nasce mais uma pergunta que acaba por desmontar todo o sistema: Tudo bem. Mas, então, por que os xiítas, que são tão xiítas, não fizeram nada disso?

Há uma frase de Camus, que sempre me tem chamado a atenção: “O artista se forja nesse perpétuo ir e vir dele próprio até os outros. Por isso, os verdadeiros artistas obrigam-se a compreender em lugar de julgar”.

O verdadeiro jornalista é um artista da palavra. Não basta narrar um fato como se fosse uma bula de remédio; é preciso mostrá-lo; é necessário torná-lo visível ao olho humano; é desesperadamente preciso que o jornalista saiba descrever-nos um fato como se pintasse um quadro, como se dirigisse um filme, como se captasse aquele momento numa imagem precisa.

Para isso, o jornalista tem de estar aberto ao conhecimento histórico. Quem conhece a história dos fatos, sabe “captar” aquilo que os outros não captaram; consegue “perceber” aquilo que passou despercebido; pode “mostrar” aquilo que ninguém tinha sequer imaginado.

Conseguir “compreender” os fatos nos dias que correm não é tarefa fácil. E, uma vez compreendidos, conseguir descrevê-los e narrá-los com a mesma força e vibração com que a mão de Van Gogh trabalhava suas telas, não só não é fácil, como é, realmente, tarefa de artista, de um artista da palavra.

 

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