O Senhor dos Anéis
- UMA TAREFA A CUMPRIR
Quando J.R.R. Tolkien escreveu seu “Senhor dos Anéis” ficou tão preocupado com as diferentes interpretações que poderiam ser dadas que quis deixar por escrito, explicitamente no prefácio do mesmo, que a história do Senhor dos Anéis era apenas isso: uma história fictícia, contada por alguém que gostava de contar e para quem gostasse de ler.
Contudo, toda obra escrita –bem como qualquer outra obra de arte- passa a ter vida própria. Uma vida, que como no caso dos filhos, vai muito mais além do sonho ou do desejo dos progenitores. E isso nos permite tentar olhar para a obra de Tolkien com olhos muito diferentes dos seus, com um olhar que ele, como pai ciumento, talvez reprovaria e, mesmo assim, não poderia deixar de concordar.
Há um fio tênue que perpassa toda a obra de Tolkien. Esse fio é a oposição entre luz e sombra, entre ser e espectro. Tolkien quer nos falar de que não é fácil resistir à força destruidora do Anel. O mundo da Terra Média é um mundo onde encontramos pessoas com caráter e pessoas que viraram espectros. Pessoas que podem vir a ter mais caráter e pessoas que ainda não viraram completamente espectros.
Cada uma das personagens criadas por Tolkien estão cheias de facetas humanas. Não é propriamente um reino de fantasia, e muito menos um reino do bem e, outro, do mal. Magos como Gandalf ou Saruman são pessoas que encontramos com frequência nas empresas, nas escolas, nos escritórios…..gente prudente, sensata, com conselhos acertados e que, de vez em quando, falham, se tornam arrogantes, pensam que têm o rei no umbigo….Homens como Aragorn ou Faramir talvez haverá poucos, mas muitos haverá como Boromir: esforçados, destemidos, pre-potentes, arrojados….Em fim, hobbits como Frodo ou Sam ou Pippin encontramos quase todos os dias, gente normal, tranquila, com gostos caseiros e que, de repente, devido a uma mudança nas circunstâncias da vida, são chamados a realizar uma tarefa que nunca tinham pensado, que nunca teriam querido, que está muito acima das suas forças e, mesmo assim, acabam dando conta dela.
O universo de Tolkien é um universo de pessoas, não de enteléquias. Pessoas fictícias, sim, mas se podemos expressar-nos assim, pessoas de carne e osso. A maestria de Tolkien está em mostrar que as virtudes das suas personagens podem ser também os seus maiores defeitos. E vive-versa, que seus defeitos podem tornar-se grandes virtudes. Depende do caráter de cada um.
É com uma tarefa, com um “pesado fardo” que a trama do “Senhor dos Anéis” se torna cativante. Logo no começo do livro, depois dos foguetórios da festa de aniversário de Frodo e de Bilbo, Frodo ainda não tem uma clara noção do que se trata: Percebe apenas que a vida está se tornando difícil; que olha ao seu redor e vê, perplexo, que, de fato, as nuvens estão ficando mais escuras, que a noite está chegando mais cedo, que há no ambiente uma tensão, um medo latente que, antes, pouco tempo atrás, não havia. E olha ao seu redor e parece que as sombras estão se adensando e Frodo sussurra ao Mago Gandalf:
–Tempos ruins os que nos tocaram viver. Gostaria que isso não tivesse acontecido na minha época.
E o leitor do “Senhor dos Anéis” que, até aquele momento estava já começando a cansar-se de tanto café da manhã sem graça, tantos vales floridos e tanta vida monótona, sente-se atingido pela resposta de Gandalf:
– A decisão não é nossa. Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado. E o tempo está começando a ficar negro.
A resposta. Tudo depende da resposta que for dada a essa questão inicial que nos aguilhoa, que nos incomoda, que nos deixa temerosos porque, realmente, o problema é grande demais, a dor é grande demais, a vida é mesmo grande demais e temos consciência de que tudo isso nos ultrapassa.
O que Shakespeare quis dizer com o seu “to be or not to be” foi o mesmo que Gandalf deixou nos nossos ouvidos e que Frodo, vez por outra, precisamente quando está mais desalentado e sem ânimo, também escuta nos seus: Tudo o que temos de decidir é o que fazer com o tempo que nos é dado… To be or not to be. Ambos querem dizer-nos que a reposta que for dada deixará ver a qualidade moral da pessoa que respondeu.
Toda vocação tem um quê de misterioso e pessoal. A escolha de Frodo não tem uma explicação totalmente racional. E Frodo percebe-o. Várias vezes ao longo do seu longo caminho percebe que poderia ter dito não; que poderia não ter aceito o seu papel; que não tinha nenhuma necessidade de estar lá, carregando aquele Anel…
– É claro que quero destruí-lo! Ou, bem,…fazer com que ele seja destruído. Não sou talhado para buscas perigosas. Gostaria de nunca ter visto o Anel! Por que veio a mim? Por que fui eu o escolhido?
– Perguntas desse tipo não se podem responder –disse Gandalf-. Pode ter certeza de que não foi por méritos que outros não tenham: pelo menos não por poder ou sabedoria. Mas você foi escolhido e, portanto, deve usar toda força, coração e esperteza que tiver….Mas a decisão é sua (p. 63)
Toda tarefa verdadeiramente digna do homem tem algo de grandioso, de inabarcável, de não totalmente explicitado e, por isso mesmo, tem algo de incerto. Isso precisamente é que lhe confere dignidade: é necessário entregar-se totalmente à tarefa; é preciso gastar todas as energias e empenhar tudo de si para realizar uma tarefa que, desde o começo, está além do nosso limite.
Aí está a grandeza de Frodo: percebe que há realmente uma tarefa a realizar e que, do sucesso ou insucesso dessa tarefa, depende a felicidade, a paz e a tranquilidade de toda a sociedade…Frodo não sabe bem o que é que se espera dele, já que as circunstâncias não estão especificadas. O único que Gandalf lhe deixou entrever é que é necessário encontrar alguém que esteja disposto a destruir o Anel. Isso mesmo, unica e exclusivamente disposto.
É precisamente nesse sentido que Ortega y Gasset distingue entre o homem-massa e o homem de qualidade: o primeiro contenta-se com o que é, encontra-se satisfeito com a sua mediocridade, sem exigir-se em nada; enquanto que o segundo exige muito de si próprio (Cfr. “Rebelión de las masas“, p. 109). O chamado só encontrará uma resposta por parte daqueles que fazem da sua vida um esforço para “superar-se sempre, para transcender do que já é para aquilo que se coloca como dever e exigência” (idem, p. 112).
E Frodo decide guardar o Anel e deixar o Condado.
II. AS DIFICULDADES
Nenhuma tarefa humana, e menos ainda se a tarefa for importante, é exenta de dificuldades. As dificuldades têm uma função importante na dinâmica da história e na formação da personalidade humana.
É Fernando Pessoa quem nos lembra que “O meu dever fez-me”. Há um dever, há uma transcendência colocada diante do homem, que exige dele um comportamento à altura, que extrai dele o melhor de si próprio e cuja realização aperfeiçoa-o enquanto homem.
E, na mesma proporção, há também o tempo. O tempo é o fator mais duro, mais pesado, mais cruel da condição humana. Tudo o que fazemos, fazemo-lo no tempo.
Tolkien trabalha com maestria talvez insuperável o peso da passagem do tempo sobre a alma humana. Decisões tomadas tempo atrás começam a tornar-se pesadas; o longo caminhar até chegar à realização da meta perseguida vai minando a vontade; as dificuldades que o mundo, os outros ou a nossa propria fraqueza nos apresentam inclementemente diante dos olhos têm um efeito fulminante perante o nosso ânimo. E Tolkien se delicia em narrar as longas caminhadas, os ventos frios e cortantes, os momentos de escuridão e indecisão, a fome, a sede, a incerteza, as trilhas íngremes, os vales tenebrosos…Tanto é assim, que o leitor pode até ficar impressionado com a capacidade criativa do autor, mas decididamente fica cansado de tanto e tanto caminhar, tanto e tanto caminho. E é que, inevitavelmente, para realizar uma tarefa, qualquer tarefa é preciso pura e simplesmente realizá-la, percorrer os metros que configuram os quilômetros, durante os minutos que perfazem uma hora. E, assim, um dia e outro, uma noite e outra. Uma semana, e mais uma. Machado, num dos seus versos mais famosos, deixou-o escrito também: Caminhante, não há caminho. Faz-se caminho enquanto se caminha. E não esqueçamos que o apelido de Aragorn, o Rei que virá a reivindicar o seu trono, é precisamente “Passolargo” ou “Caminhante”.
“O Senhor dos Anéis” é um canto à esperança. Diante das inúmeras dificuldades que a “sociedade do anel” irá enfrentando ao longo de toda a obra, ressoa, umas vezes fortemente e, outras, com suavidade, quase que num sussurro, mas sempre sustentando o alento que desfalece, a voz de Gandalf ou de Aragorn que pede que não percam as esperanças.
– Não podemos continuar –disse Merry a Passolargo -. Receio que isso tenha sido demais para Frodo. Estou terrivelmente aflito por ele…
– Não há mais nada que eu possa fazer nesta região deserta…
– Qual é o problema com meu patrão? –perguntou Sam- O ferimento foi pequeno, e já está fechado. Não se vê nada a não ser uma marca fria e branca em seu ombro.
– Frodo foi tocado pelas armas do inimigo –disse Passolargo- E há aalgum veneno ou malefício em ação, que está além da minha habilidade de expulsar. Mas não perca a esperança, Sam!
A desesperança não é a situação do homem que não faz nada, que não se empenha nalguma tarefa; pelo contrário, é a situação do homem que está -ou melhor, estava- em caminho, que persegue -perseguia- uma meta, mas que não tem fortaleza suficiente para ultrapassar as dificuldades e acaba sendo submergido por elas.
A vida não consiste simplesmente em ter uma tarefa a realizar. Isso é muito, mas não é tudo. A vida, se quer ser plena, consiste em realizar, de fato, a tarefa. É de novo Pessoa quem lembra que “quem quiser passar além do Bojador, tem de passar além da dor” (in “Mar Português”).
Há uma relação imediata entre falta de sentido e desesperança, bem como entre desesperança e desejo de morrer. Morte que não necessariamente é física, pois pode muito bem ser uma morte psicológica. Podemos passar a ser homovegetais. Viktor Frankl descreve magistralmente, por tê-lo vivido pessoalmente num campo de concentração nazista, o sentimento de tristeza de morte que se apodera da pessoa que perde qualquer sentido para sua existência: “quem já não consegue acreditar no futuro -no seu futuro- está perdido. Juntamente com a esperança no futuro, essa pessoa perde o apoio espiritual, deixa-se “cair”interiormente e decai física e psiquicamente” .
À beira da Montanha da Perdição, quando já faltam poucos passos para acabar a “demanda do anel”, e já pode se vislumbrar o final, tudo dá errado. Frodo jaz, sem forças e desfalecido, nos braços de Sam. Sam, que até aquele momento tinha sido a âncora que Frodo precisou nos seus momentos de naufrágio, naufraga também. Pensou, primeiro, em seguir em frente até a Montanha, carregando Frodo, mas, depois, pensando bem, percebe que não terá utilidade alguma…
– E depois? e depois? –disse Sam para si próprio- Quando você chegar lá o que vai fazer? Ele não vai ser capaz de fazer alguma coisa por si mesmo.
Para sua decepção, Sam percebeu que nãao tinha uma resposta para isso. Não tinha nenhuma idéia clara…
– Aí está! É tudo inútil! Ele mesmo já disse isso. Você é que é o tolo continuando a ter esperanças e se esforçando. Vocês poderiam ter-se deitado e dormido há muitos dias, se você não tivesse sido tão teimoso. Mas vai morrer do mesmo jeito, ou em condições piores. É melhor se deitar e desistir de tudo. Nunca vai chegar ao topo, de qualquer forma.
Como dizíamos, Tolkien quer mostrar-nos que o decisivo é a resposta que for dada às dificuldades que a vida nos apresenta. Muitos, na pele de Sam, responderiam com um estoico: “então, paciência”. Porém, essa atitude não é a paciência. A paciência é a qualidade de quem sabe resistir diante das dificuldades. E sabe responder, na hora certa, na hora que, porque resistiu, tornou-se mais forte do que a própria dificuldade. Frankl lembra que há duas dimensões no homem: o “homo sapiens”e o “homo patiens”: “aquele que, mesmo diante de um sofrimento inevitável, consegue avançar até à plena realização do sentido da sua vida.
– Vou chegar lá, mesmo que deixe tudo, exceto meus ossos, para trás – disse Sam – E eu mesmo vou carregar o Sr. frodo, mesmo que isso arrebente minhas costas e o meu coração!
Há um momento na história pessoal de cada homem em que nos sentimos obrigados a responder. Cada um tem o seu momento e a sua resposta, mas todos – a não ser que nos recusemos a ser responsáveis e, portanto, a ser verdadeiramente homens- somos chamados a responder. E quem questiona é a própria vida pessoal. Como diz Frankl, detectamos mais do que inventamos nossa própria missão na vida. Não é verdade que possamos fazer tudo o que quisermos. Isso não passa de uma ilusão romântica. A verdade é que todos nos encontramos dentro de umas coordenadas definidas previamente – “instalados”, diria o filósofo espanhol Julián Marías. Nem sempre estudamos na Faculdade que queríamos ou com o professor que gostávamos; nem sempre trabalhamos na área que nos especializamos e do jeito que pensávamos; nem sempre estamos rodeados das pessoas que preferimos… A vida é assim, ela se manifesta a nós de uma forma determinada e prévia. E fica à espera da nossa resposta…
Por isso Gandalf explica que o Anel é o que é, um poder maligno que corrompe os corações. E que isso não pode ser mudado. E que Sauron é Sauron. Uma pessoa sedenta de poder e que pensa que todos pensam como ele. E Gandalf precisa que aí está a sua fraqueza:
– A única medida que Sauron conhece é o desejo, o desejo de poder; e assim julga que são todos os corações. Seu coração não cogita a possibilidade de qqualquer um recusáa-lo, de que tendo o Anel em mãos, vamos procurar destruí-lo…
Esses são os dados que foram lançados. Não há como mudá-los. É preciso responder a eles. É preciso encontrar alguém que esteja disposto a pegar o Anel, guardar seu coração longe ddo desejo de poder que o Anel irá lhe instigar, e destruí-lo. Mas ninguém, no Conselho de Elrond – e eram muitos os homens, elfos, e anões que estavam no Conselho – responde.
– Frodo olhou para todos os rostos, mas eles não estavam voltados para ele. Todo o Conselho se sentava com os olhos para baixo pensando profundamente. Um grande pavor o dominou, como se estivesse aguardando o pronunciamento de alguma sentença que ele tinha previsto havia muito tempo, e esperado em vão que afinal de contas nunca fosse pronunciada. Um desejo incontrolável de descansar e permanecer em paz encheu-lhe o coração. Finalmente, com um esforço, falou, e ficou surpreso ao ouvir as próprias palavras, como se alguma outra vontade estivesse usando sua pequena voz.
– Levarei o Anel –disse ele- Embora não conheça o caminho.
Quantas vezes não é assim que a vida bate à nossa porta à espera de uma resposta. As grandes decisões da história pessoal não se resolvem, geralmente, por meio daquilo que Pascal chamava de “espírito geométrico” -esse desejo desmedido de equacionar tudo para garantir o risco zero de erro-. É preciso o “espírito de finesse”, o golpe do coração, a tensão vital que traz consigo a possibilidade do fracasso, a aposta em algo em parte incerto… E essa incerteza é precisamente o que dá valor e dignidade à nossa responsabilidade. O “espírito de finesse” revitaliza as energias humanas e faz o homem capaz de responder pelo que houver de errado na sua ação.
Porém, é preciso ser forte para enfrentar o risco de uma decisão. E nem todos têm força para percorrerem a trilha íngreme que acaba numa tomada de posição perante a vida; há muitos que gastam a vida em contínuos cálculos e deliberações, como se a vida consistisse num eterno retorno, à espera de um “sim”ou um “não”, que não chega nunca, que não consegue abrir passagem na vasta floresta das indecisas deliberações.
Em toda decisão humana intervém a inteligência e a vontade. Mas a palavra final é da vontade. Por si própria, a inteligência ficaria indefinidamente fazendo considerações, vendo em tudo prós e contras; sendo o mundo imperfeito como é, não há nada que de forma absoluta, necessária e ineludível, possa obrigar a inteligência a agir. Ou por outras palavras, tudo o que houver -por mais perfeito que for- sempre terá algumas desvantagens. É preciso determinar-se a agir, mesmo que nesse ato de vontade se passem maus bocados.
– Que bela enrascada esta em que nos metemos, Sr. Frodo –disse Sam balançando a cabeça.
III. OS MEIOS
A grandeza do “Senhor dos Anéis” não está em ter falado de um reino do bem e do mal. A sua grandeza está precisamente em insistir na idéia de que o único que salvará este mundo, o único que poderá trazer uma réstia de luz no meio da negra noite que nos rodeia, o único que poderá fazer nascer uma nova aurora é precisamente a consciência de que, nesta Terra Média onde vivemos, não há ninguém absolutamente bom, nem absolutamente mau. Nem Gollum, nem Saruman, nem os espectros do Anel, nem mesmo o Senhor de Mordor são pessoas “que não tem mais jeito”, seres perversos e cruéis “que precisam ser eliminados”.
Quando Frodo fica conhecendo toda a história do Anel, e fica sabendo que Bilbo nãao quis matar Gollum, se revolta e exclama:
– É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve a chance!
– Pena? Foi justamente Pena que ele teve. Pena e Misericórdia: não atacar sem necessidade. E foi bem recompensado, Frodo. Tenha certeza de que ele foi tão pouco molestado pelo mal, e no final escapou, porque começou a possuir esse Anel desse modo. Com Pena.
Frodo não entende, não tem condições de entender o que é que Gandalf está querendo dizer. Os conceitos de Pena e Misericórdia, com relação a Gollum, não têm sentido para ele. Só irá entender depois, muito depois, quando tenha conhecido Gollum, tenha vivido muito perto dele durante muitos dias e tenha tido condições de sentir algo por ele, sentir dó, sentir pena….compadecer-se dele. Só, então, conseguiu entender o que Gandalf lhe disse e, graças a isso, conseguiu salvar-se e cumprir a missão. Mas naquele primeiro diálogo, Frodo não sabia o que era ser compassivo:
– Não sinto nenhuma pena de Gollum
– Você não o viu –Gandalf interrompeu
– Não vi e não quero ver – disse Frodo. Não consigo entender você. Quer dizer que você e os elfos deixaram-no viver depois de todas as coisas horríveis que fez? Agora, de qualquer modo, ele é tão mau quanto um orc, e um inimigo. Merece a morte.
– Merece!? Suponho que sim. Muitos que vivem merecem morrer. E alguns que merecem viver, morrem. Você pode dar-lhes a vida? Então, não seja tão ávido para condenar à morte em nome da justiça, temendo pela sua própria segurança. Nem mesmo os sábios conseguem ver os dois lados. Não tenho muita esperança de que Gollum possa se curar antes de morrer, mas existe uma chance. E ele está ligado ao destino do Anel. Meu coração me diz que ele tem ainda algum tipo de função a desempenhar, para o bem ou para o mal, antes do fim…
Tolkien nos fala de um mundo de seres criados e não de um mundo de deuses. Um mundo de seres com imperfeições, mesmo que sejam magos, ou elfos ou árvores que falem e que andem…Seres, afinal, que não são nem o bem nem o mal. São seres que fazem coisas boas e más, de acordo com o caráter de cada um, com a força de vencer a própria fraqueza, de resistir à atração do poder. Um mundo onde é necessário abrir a porta à misericórdia, que é um outro nome para a esperança: a esperança de que quem está na nossa frente pode, de fato, mudar e converter-se em alguém melhor.
Quando Gandalf encontra-se frente a frente com Saruman, que ficou sozinho e isolado, não o condena à extinção, não quer eliminá-lo da face da terra média. Pelo contrário, oferece-lhe uma mão estendida
– Volte, Saruman!….Você se transformou num tolo, Saruman, e apesar disso causa pena. Poderia ainda ter desviado da loucura e do mal, e ter sido útil. Mas você escolheu ficar e ruminar as pontas de suas antigas tramas. Então, fique!
Gandalf recusa-se a matá-lo e, quando seus companheiros lhe pedem uma explicação, diz calmamente:
– Não lhe farei nada. Não quero dominar as coisas. O que acontecerá com ele? Não sei dizer. Lamento que tanta coisa que foi boa agora apodreça na torre…
E, no fim de toda a aventura, quando Frodo, que já aprendeu a lição, encontra-se novamente com Saruman, que se apoderara de todo o Condado e estabelecera um regime de terror e medo, recusa-se também a matá-lo quando os outros hobbits exigem que seja morto
– Não permitirei que ele seja morto. É inútil retribuir vingança com mais vingança. Não vai sanar nada. Vá, Saruman! pelo caminho mais rápido….Não o mate, Sam….Saruman já foi grande, de uma espécie nobre contra a qual não deveríamos ousar levantar nossas mãos. Caiu, e sua cura está além do nosso alcance; mas ainda assim prefiro poupá-lo, na esperança de que possa encontrá-la…
Mas nem todos conseguem ter clemência e misericórdia na Terra Média. Nem todos conseguem enxergar réstias de luz no meio da escuridão humana, pedaços de bondade misturados com atos mesquinhos…Sempre há aqueles que, como o próprio Saruman, olham para o mundo e definem, por contraste, o eixo do bem. O eixo onde tudo o que há de bom se junta e existe. Lá, tudo o que se faz, tudo o que se persegue, tudo o que se diz, tudo o que não se diz, tudo, absolutamente tudo será do bem, enquanto que, mais para lá, tudo, absolutamente tudo será do mal. É tudo bem mais simples. O único problema serão algumas maldades incidentais (meios, afinal), mas….o que vem a ser isso diante dos altos propósitos que movem o eixo do bem?!
– Podemos esperar nossa hora, podemos guardar o que pensamos em nossos corações, talvez deplorando as maldades feitas incidentalmente, mas guardando o propósito final mais alto: conhecimento, liderança, ordem. Não precisaria haver qualquer mudança em nossos propósitos, só em nossos meios.
É assim que Saruman procurou o apoio de Gandalf para “limpar” o mal da Terra Média. Mas Gandalf conhecia-se bem. Sabia que a tentação, para ele, viria exatamente por esse caminho: a possibilidade de fazer o bem. Tanto Gandalf quanto Galadriel foram tentados com essa insinuação: o grande bem que poderiam fazer se usassem todo o Poder do Anel.
– A Senhora Galadriel é sábia, destemida e bela –disse Frodo-. Dar-lhe-ei o Um Anel se assim o desejar. Esse peso é demais para mim.
– Não vou negar que meu coração desejou muito pedir o que está oferecendo. Por muitos longos anos pensei o que faria caso o Grande Anel me chegasse às mãos, e veja! Ele está agora ao meu alcance. O mal que foi concebido há muito tempo continua agindo de muitas maneiras, quer o próprio Sauron seja ou não derrotado…Você me oferece o Anel livremente! No lugar do senhor do Escuro, você coloca uma Rainha. E não serei escura, mas bela e terrível como a Manhã e a Noite!….e todos deverão me amar e se desesperar!
Galadriel ficou olhando para o anel que Frodo lhe oferecia e se transformou. Ficou terrível, de uma altura incalculável e uma beleza insuportável. E logo depois voltou ao seu normal.
– Passei pelo teste….voltarei a ser Galadriel.
E quando o hobbit insistiu, mostrando o grande bem que poderia fazer em todo o mundo:
– Eu gostaria que a senhora ficasse com o Anel. Poderia pôr as coisas no lugar certo. Faria com que certas pessoas pagassem pelo serviço sujo que fizeram.
Galadriel respondeu calmamente, sabendo bem do que estava falando:
– Eu faria. É assim que tudo começaria. Mas infelizmente não pararia ali. Não falemos mais nisso. Vamos!
É uma curiosa ironia do destino que quem exprima essas idéias seja precisamente alguém chamado Sam: É uma pena que Bilbo não tenha apunhalado aquela criatura vil, quando teve chance! Sam, o companheiro fiel de Frodo na sua missão, está exausto, desesperado e, na sua simplicidade, queixa-se de Bilbo, aquele que começou toda essa história do Anel para o Condado dos hobbits, e lamenta que não tivesse matado Gollum…
Frodo, que jaz quase sem forças nas imediações da Montanha da Perdição, lembra de que ele mesmo também disse isso a Gandalf. E lembra que foi então quando Gandalf lhe confiou o segredo de como vencer o poder maligno do Anel: Pena!? Foi justamente pena que ele teve. E misericórdia. Não atacar sem necessidade.
É fácil criar a “necessidade” de atacar. É fácil encontrar argumentos que provem não só à opinião pública, mas, inclusive, a nós próprios que é preciso, que é inevitável atacar. Existe até a possibilidade de se organizar uma campanha orquestrada, com cartas de intelectuais ou com disseminação de informações falsas na mídia para criar um “estado de opinião” que apoie ou, pelo menos, não condene um ataque que, bem olhadas as coisas, não era nem tão inevitável, nem tão necessário.
Sam insiste: Não sinto nenhuma pena de Gollum. Merece morrer. E diante dessa sentença tão categórica, tão peremptória, tão decidida; diante dessa absoluta falta de dúvida sobre se é ou não para matar, Frodo sabe tirar forças da fraqueza e, num último alento, fala como que falando para si próprio:
Merece!? Suponho que sim. Muitos que vivem merecem morrer. E alguns que merecem viver, morrem. Você pode dar-lhes a vida? Então, não seja tão ávido para condenar à morte em nome da justiça, temendo pela sua própria segurança. Nem mesmo os sábios conseguem ver os dois lados.
Frodo também descobriu o segredo do Anel. O poder é forte. Quem tem muito poder é poderoso. Mas o poder pode mais do que o próprio homem que o detém. É preciso saber condoer-se; é preciso ter compaixão; é preciso ter dentro do coração fagulhas de misericórdia. Se não, não se tratará de ter ou não ter o poder, mas, pelo contrário, se tratará de ser ou não ser, como Galadriel, capazes de resistir ao domínio maligno que ele estenda sobre nós. To be or not to be. Não seremos mais; seremos apenas espectros, os espectros do Anel.