Para entender a nova ordem mundial
Texto apresentado na PUCPR num Congresso sobre Terrorismo
O que entendemos pelo nome de “sociedade moderna” é a construção histórica de um tipo de civilização cultural baseada em dois sólidos pensadores: Hobbes e Max Weber.
Ambos estabeleceram uma utopia que tem dado certo com algum que outro percalço. Uma utopia tão poderosa que dificilmente conseguimos entender-nos como “seres-no-mundo” sem usar alguns dos seus conceitos.
No começo dos tempos modernos, a Europa cunhou dois novos conceitos que moldariam a modernidade: o princípio da legalidade e o princípio da racionalidade.
O admirável mundo novo que seria criado pelos tempos modernos carregaria em si uma grande desconfiança no homem (afinal, o homem era mesmo o lobo do homem) e uma profunda confiança no sistema, tanto na lei e na força do Estado quanto na técnica e no progresso da ciência.
A modernidade nos ensinou que, se quiséssemos ser felizes, não poderíamos depositar a confiança no homem, comprovadamente um dos seres –talvez o único- mais falíveis do planeta; tínhamos de optar por confiar na razão pura, na técnica precisa, na ciência objetiva.
E, de fato, como a um novo Leviathán, entregamo-nos completamente a essa nova utopia. Abdicamos da nossa condição humana –era esse o preço a pagar- e criamos, ou melhor, criaram para nós um sistema onde tudo, por força do imperativo categórico racional, deveria dar certo. O índice máximo de tolerância permitida paara tudo aquilo que não estivesse adequado ao modelo deveria ser zero.
Ítalo Calvino, no seu livro “Palomar”, lembra uma reflexões que podem servir-nos como analogia e parábola:
“Houve na vida do senhor Palomar uma época em que sua regra era esta: primeiro, construir um modelo na mente, o mais perfeito, lógico, geométrico possível; segundo, verificar se tal modelo se adapta aos casos práticos observáveis na experiência; terceiro, proceder às correções necessárias para que modelo e realidade coincidam.
Num modelo bem construído, na verdade, cada detalhe deve estar condicionado aos demais, para que tudo se mantenha com absoluta coerência, como num mecanismo em que parando uma engrenagem todo o conjunto pára. O modelo é por definição aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com perfeição, ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona e que se esfrangalha por todos os lados, portanto, resta apenas obrigá-la a adquirir a forma do modelo, por bem ou por mal.
Por muito tempo o senhor Palomar se esforçou por atingir uma impassibilidade e um alheamento tais que só levavam em conta a harmonia serena das linhas do desenho, todas as lacerações e contorções e compressões que a realidade humana deve sofrer por identificar-se com o modelo deviam ser consideradas acidentes momentâneos e irrelevantes…
O que se desejava era um trabalho sutil de ajustamento, que trouxesse correções graduais ao modelo para aproximá-lo de uma realidade possível, e à realidade para aproximá-la do modelo. Na verdade, o grau de ductilidade da natureza humana não é ilimitado como a princípio se pensava; e em compensação até mesmo o modelo mais rígido pode dar provas de uma elasticidade insuspeitada. Em suma, se o modelo não consegue transformar a realidade, a realidade deveria conseguir transformar o modelo”.
Uma das exigências básicas para que o modelo da modernidade funcionasse era a distinção estabelecida por Kant entre razão e sentimento. A sociedade norte-americana e o mundo capitalista por ela criado forjaram uma ilusão que tem afetado a sociedade ocidental nos mais diversos níveis de realidade: na economia, na política, nas relações profissionais, no âmbito familiar, nas universidades, nas empresas, na mídia…Parte-se do pressuposto de que o que interessa ée a funcionalidade prática, ou seja, a quinta-essência da racionalidade. Lembro agora de uma das regras do Método de Descartes –outro pai-fundador da Modernidade- quando dizia que “para agir bem, basta conhecer bem”. É sintomático pensar que, em geral, quando algo não funciona, quando algo não vai bem, quando ocorre alguma falha no sistema o que mais nos apavora é saber que aquilo foi motivado por uma “falha técnica”. O erro humano já é previsível, o técnico, não.
Parece-me que não seja necessário esgrimir muitos argumentos para comprovar um fato que todos experimentamos como uma profunda e permanente realidade: temos criado um mundo formatado: racional, técnico, com regras e procedimentos seguros, confiável, onde tudo, absolutamente tudo é previsível, até os erros e os consertos do próprio sistema. O preço de tudo isso? a extirpação do afeto, a eliminação ou repressão do sentimento. Ou, por outras palavras, o triunfo de Kant e –por usar umas palavras de C.S.Lewis- a abolição do homem.
Uma das consequências mais funestas do triunfo da “razão eficiente” no mundo contemporâneo é precisamente o convencimento pré-potente e arrogante de que a simples razão, a pura técnica, o argumento frio de que “isto é assim porque é assim que funciona” é suficiente para que todos se convençam da “verdade das nossas soluções” e, portanto, do “triunfo da nossa forma de viver”. E se as coisas não fossem assim? Basta olhar para o outro, para grande parcela da humanidade para dar-se conta de que nem todos se importam com esse tipo de argumentos, de que a eficiência e a eficácia não são os valores supremos para a maioria das pessoas. E se for assim, por que não vamos tentar mudar o nosso modelo, por que não levantar a possibilidade de que talvez seja nosso modelo que precise se adaptar à realidade da natureza humana?
Como professor de História gostaria de lembrar um pensamento, quando nos enfrentamos com este mundo de hoje e pensamos no mundo que virá, que me parece decisivo e que –pelo menos desde 1500- tem sido o ensinamento, umas vezes mudo e suplicante, e, outras, desgarrado e dolorido, que a América tem oferecido ao mundo: é precisamente no conhecimento do outro que acontece a possibilidade de conhecermo-nos a nós próprios.
É precisamente isso que um mundo dominado pela “eficiência técnica” e pela “razão organizadora” nos impede de realizar. Não existe “outro” quando o que prevalece é a razão e a técnica. Não há espaço para a singularidade, para a individualidade, para a unicidade quando o que prevalece é o número, a estatística e o sistema padronizado. Não há espaço para o amor –único lugar possível de encontro pleno com o outro, quando o que prevalece é a noção de que o tempo é dinheiro.
Uma das questões mais decisivas neste momento é precisamente se haverá possibilidade de os Estados Unidos, diante dos acontecimentos, vir a entender mesmo “o outro”? O perigo –que terá o efeito de uma bomba retardada- será se, como costumou acontecer até agora, os EUA se empenharem em dizer e, pior ainda, pensar que, pelo fato de terem vencido esta guerra, ou esta etapa da guerra, isso significa que os sobreviventes estão do lado deles ou, o que significa o mesmo para os norte-americanos, que os sobreviventes pensam como eles (afinal, não é à toa que uma das primeiras declarações do Presidente norte-americano foi que, nesta guerra, se está ou do nosso lado ou contra o nosso lado). Se for essa a conclusão a que os EUA chegarão, então podemos ficar seriamente preocupados porque não terão tido ainda a experiência existencial necessária para irem além do próprio umbigo.
Se há uma lição que se destaca de toda a história da conquista e colonização da América é precisamente que “vencer pela força das armas” não é sinônimo de convencer. E que “alianças estratégicas” não significa comunhão de idéias. Por outras palavras, o que é de se temer não é se haverá um ressurgimento de outros Bin-Laden –coisa que, infelizmente poderá acontecer perfeitamente- mas se os Estados Unidos serão capazes de entender que o mundo por eles criado já não é mais viável porque a partir de agora foi introduzida a desconfiança no sistema; capazes de entender que não é a “eficiência técnica”, o “conforto material” e as relações “clean” que resolverão os problemas da humanidade (inclusive a do Afganistão); que é preciso uma atitude diferente perante o mundo atual, onde as relações, as formas de pensar e, principalmente, as formas de conviver terão de ser estabelecidas de forma completamente diferente ao que vinha acontecendo até agora. E, fundamentalmente, se os Estados Unidos serão capazes de perceber que, assim como a febre é o sinal de que o corpo não anda bem, a queda das duas torres foi sinal de que, parafraseando Shakespeare, tem algo de podre no reino da Dinamarca. No reino da Dinamarca, e não apenas no mundo dos terroristas.
Não é de agora que se vem percebendo os sintomas da falência da racionalidade para dar conta da sociedade moderna. Basta abrir um jornal ou assistir a um noticiário de tv para perceber que algo não corre bem com os homens e com as mulheres dentro da sociedade auto-intitulada do bem-estar. Não é de agora que, nos âmbitos intelectuais e científicos e em grandes parcelas da mídia, causa já uma certa estranheza falar de “modernidade” e de “racionalidade” e de “universalidade” quando vemos que tanto o mundo quanto as pessoas estão se fragmentando e se descompondo aos pedaços. Não falaria nenhuma novidade aqui se dissesse que estamos já em plena pós-modernidade. Contudo, gostaria de tentar explicar brevemente quais deveriam ser os caminhos por onde devemos conduzir esta “pós-modernidade” para que não venha a ser mais uma nova ilusão.
Como já disse, a crise do mundo atual é uma crise de confiança. Os dois pilares que fundamentavam nossa sociedade –a racionalidade técnica e o contrato social- ruíram junto com as duas torres do WTC. Agora, olhamos para os destroços do WTC e perguntamo-nos: para quê fizemos tudo o que fizemos? Agora, olhamos para o vazio deixado no skyline de New York e defrontamo-nos com o nosso próprio vazio: afinal, o que é o homem? afinal, de que adiantou esse esforço insano de converter o homem numa máquina, quando nem sequer a máquina é confiável?
Temos de re-encontrar um novo conceito de homem que fundamente uma nova humanidade. Um homem que não esteja escindido entre razão e sentimento, entre objetividade e subjetividade, entre matéria e espírito. não se trata de cair na armadilha de pensar num homem abstrato. E, para evitar essa armadilha, temos de criar condições para que a sociedade estabeleça definitivamente um sistema onde seja possível a existência e a comprensão do homem como um todo; onde não seja necessário proceder a um esfacelamento do próprio homem para poder viver; onde os laços sentimentais e afetivos possam conviver com os pensamentos, os raciocínios e os argumentos, onde se possa viver dignamente como homens e mulheres, mesmo que às vezes, ou mesmo que muitas vezes, a coisa não funcione pelo simples motivo de que somos humanos.
O homem é um sistema aberto. É próprio do homem ser um sistema e, portanto, estar submetido a uma forma de ser, a uma estrutura interior e exterior que não depende exclusivamente dele; mas o fato de que esse sistema seja aberto carregará sempre o sinal do risco, a margem de insegurança, a possibilidade do erro e do fracasso, que são a marca do triunfo da liberdade humana perante a exatidão tirânica da máquina. Ou seja, a sociedade do futuro tem de convencer-se de que onde houver um ser humano, haverá sempre um risco e que a eliminação do risco trará como consequência inevitável a eliminação do humano. E precisamente por ser um sistema aberto é que se pode afirmar que o homem é um ser de encontros. Temos de tornar verdadeiramente humanas as relações que a própria vida nos conduz a estabelecer. Umas relações que sejam pessoais, onde se é persona porque o que se diz “soa”, “faz eco”, encontra um outro ser que “vibra” junto: per-sonat.
O fato de estar juntos não produz um encontro. O encontro, quando é rigorosamente pessoal tem algo de enormemente revelador, criativo, enriquecedor, cuja característica principal é que é algo mútuo, de duas mãos. Passamos a compartilhar juntos uma série de possibilidades, de projetos, de pensamentos e, necessariamente, de afetos e sentimentos. E não apenas isso, mas, e me parece que é o mais decisivo de tudo, ambos nos sentimos e somos, de fato, modificados. Quando se dá um encontro –observa o filósofo espanhol Julián Marías- não se trata apenas de que “me aconteceu algo”, mas é que “algo ficou em mim”, e “algo ficou em vocês”, como algo que nos constitui, que está a partir daquele momento incorporado em nossas pessoas e vai condicionar o resto do que iremos vivendo.
Evidentemente, para viver assim torna-se necessário alterar o sistema, mudar a utopia. E para que esse novo modelo não seja uma nova ilusão é preciso fixar como ponto de referência não o modelo, mas a realidade, a própria realidade e dignidade do homem. É preciso estar dispostos a tratar o homem como o que ele é: um sistema aberto. Um todo organizado e em equilíbrio, porém, aberto, por causa da sua liberdade, ao desconhecido, ao inefável, ao surprendente, ao imprevisível, ao risco, ao engano, à verdade e à mentira, à vileza e à grandeza, à criatividade e à originalidade. É preciso aceitar que as relações humanas vão além, muito além, mas muito além mesmo das relações laborais, produtivas ou econômicas. É preciso convencer-se de que o tempo do “homo faber” acabou, que o ser humano está muito além da simples realização de um produto. É preciso introduzir o carinho, a ternura e a comprensão como os elementos constitutivos de tudo o que seja humano. É preciso, decididamente, deixar de lado a espiral do poder e do domínio e estabelecer um sistema onde os conceitos de serviço e de ajuda não sejam acolhidos com um sorriso cético ou irônico, mas como as possibilidades da realização do humano. É preciso, definitivamente, criar as condições para que as palavras de Ivan Karamazov sejam colocadas efetivamente em prática: a vida! a vida é antes da lógica!
Gostaria de lembrar –como fez o Prof. López Quintás numa conferência pronunciada na Faculdade de Educação da USP- umas palavras do escritor e pensador Romano Guardini, em 1962, olhando para uma Europa que ainda estava por ser feita, e que poderá servir-nos de parábola e analogia para a tarefa de construção da nova ordem mundial: “a Europa criou durante séculos uma magnífica cultura do poder; agora tem a tarefa de criar uma cultura do serviço. Que nenhum europeu tenha medo desta palavra –serviço-, porque este tipo de serviço não avilta, nem rebaixa; mas, pelo contrário, eleva e dignifica tanto a um quanto ao outro, tanto a quem presta um serviço quanto quem o aceita. É a esta atitude que eu chamo de solidariedade”.