Torre del Oro iluminada à noite, às margens do GuadalquivirRafael RuizProfessor de História da Unifesp

Comunicação e violência

Toda informação tem matéria e forma; e não parece necessário fazer qualquer demonstração para afirmar que, tanto na sociedade quanto na mídia, privilegia-se mais a forma do que a matéria. A quantidade de informação substituiu quase definitivamente a qualidade da mesma. Até certo ponto, pode-se afirmar que uma boa forma mascara, e muito, uma matéria insubstancial.

É por isso necessário repensar o papel do informador, entendendo por informador todos aqueles que, de uma maneira ou outra, lidam com a mídia e a opinião pública; todos aqueles que se convencionou em chamar de “formadores de opinião”.

Nesse sentido, há umas palavras de George Santayana que, embora falando sobre a arte, podem ser perfeitamente aplicadas:

“O tema da arte é a vida, a vida como verdadeiramente é; mas a sua função consiste em melhorá-la (…) Quanto mais bárbara for a época do artista, tanto mais drástica e violenta será a sua ação. Terá de gritar no meio da tormenta”.

Estamos vivendo um tempo em que se faz necessário gritar no meio da tormenta. Porém, essa ação pressupõe uma opção prévia: aceitar que a função do informador consiste não apenas em retratar a vida como ela é, mas melhorá-la. Surge, então, uma palavra que, durante décadas, tem se manifestado como um tabu: melhorar implica um juízo de valor; melhorar supõe que há um certo e um errado; melhorar exige uma tomada de posição por parte de quem está querendo precisamente tornar melhor a realidade.

A diversidade de culturas, a pluralidade de opiniões e o mosaico de posições tem

levado a maior parte dos intelectuais a encontrarem uma saída fácil para solucionar a encruzilhada do certo e do errado. De maneira geral, a solução acadêmica tem sido ou bem o caminho do “politicamente correto” ou o “consenso majoritário”.

Essa posição, encontrada alhures nas diferentes camadas dos formadores de opinião, esconde veladamente a atitude de considerar como “manipuladora” ou “fundamentalista” qualquer tentativa de argumentação sobre esses “princípios basilares”. Posições que se podem encontrar no campo da Filosofia do Direito, ou na Sociologia ou na História e que têm por base a recusa sistemática a conversar sobre o em-si, sobre as essências, sobre o quê e o por quê, ou seja, sobre o ser e a finalidade e contentam-se em preocupar-se com o para quê pragmático e utilitarista que, dizem, é o que, de fato, se pode conhecer objetivamente e sobre o que não haverá divergência.

Evidentemente, num mundo assim a questâo de “melhorar a vida” acaba sendo reduzida a simples dado e estatística, como todos temos farto conhecimento graças aos anos dourados do “walfare state”. Porém, a questão que se levanta é: será que isso, e apenas isso, é suficiente para melhorar a vida?

Gostaria de responder com umas palavras de William Faulkner:

“O dever do poeta, do escritor, é escrever sobre o homem; sobre o homem que não apenas perdurará, mas que prevalecerá. O homem que é imortal não porque seja de todas as criaturas a única que possui uma voz inextinguível, mas porque tem uma alma, um espírito, capaz de compaixão e de sacrifício e de sofrimento. O seu privilégio consiste na ajuda que pode dar ao homem para que perdure, levantando o seu coração, e lembrando-lhe o que seja o valor, a honra, a esperança, a dignidade, a compaixão, a piedade”

            Parece-me que também não são precisas muitas explicações para concordar em que a opinião geral do mundo cultural moderno consiste precisamente em considerar esses valores ou a defesa dos mesmos como algo careta, conservador, fundamentalista e expressão típica daquele que se considera ser dono da verdade. E esse “estado de consciência coletivo” é um dos principais responsáveis por dificultar essa opção que falávamos no começo: os intelectuais, os formadores de opinião têm medo de tomar posições definidas. Não querem assumir o papel que lhes cabe de conformadores –e por isso “melhoradores”- da realidade porque duvidam que se possa chegar a uma verdade compartilhada. Compartilhada não no sentido de “confeccionada por acordo”, mas no sentido de ter sido descoberta conjuntamente através de um diálogo.

Prefere-se um “acordo de consenso”, mesmo sabendo ou correndo o risco de que as coisas não sejam assim, a ter de enfrentar a laboriosa tarefa de descobrir a verdade e o valor de cada coisa. Basta dar uma breve olhada aos filósofos que mais marcaram o pensamento ocidental nestes últimos cinquenta anos e nos encontraremos com soluções ou posições marcadamente anti ou irracionalistas: Niezstche e o seu voluntarismo; Freud ou Marcuse e o mundo dos desejos; Sartre e Camus com o seu nihilismo existencialista…

Na base da quase totalidade da filosofia atual encontra-se uma profunda desconfiança de que o homem possa chegar à verdade. Ora, é precisamente a verdade e a possibilidade de ser atingida pelo homem que constitui e fundamenta a racionalidade humana. Falamos de “racional” porque acreditamos que podemos ultrapassar o limite dos nossos gostos e desejos; porque acreditamos que há algo comum que pode ser captado e compartilhado por todos os racionais, independentemente dos seus gostos e caprichos. A redução irracionalista gerou um homem , necessariamente, egoísta e isolado, porque lhe negou a possibilidade de compartilhar racionalmente com os outros homens a natureza das coisas; um homem, necessariamente, violento porque, a partir do momento em que nãao há nenhum critério nem motivo racional sobre o qual fundamentar os meus desejos, tudo acaba sendo reduzido a uma questão de força.

Como afirma Ortega y Gasset: “Se alguém na sua discussão conosco se desinteressa de ajustar-se à verdade, se não tem desejo de ser verídico, é intelectualmente um bárbaro. De fato, essa é a posição do homem-massa quando fala, quando dá conferências ou quando escreve”(“La rebelión de las masas”, p. 119)

 

Como muito bem aponta Allan Bloom no seu livro “O Declínio da Cultura Ocidental”, o homem moderno não carece de nenhum meio técnico; tem tudo e, do ponto de vista material, está em condições de escolher tudo, porém “não tem motivos suficiente para optar por um capricho” (p. 138). A falta de motivo é decorrência da falta de critério, ou, como afirma o filósofo canadense Charles Taylor, da experiência vital e frustrante de carecer de qualquer outra certeza além da dos próprios gostos.

Não é de se estranhar, portanto, que toda essa situação seja um campo fértil à violência e, mais ainda, à violência fútil, gratuita, sem motivo algum.

É por isso que o papel do informador, a tarefa primordial dos formadores de opinião é dar motivos e critérios que ajudem a quebrar os tabus do irracionalismo; que permitam discernir os caminhos e as trilhas de acesso ao verdadeiro e ao falso; ao certo e ao errado. Isto não significa que deva reivindicar o papel de dono da verdade; significa, sim, que deve reivindicar, como diziam os clássicos gregos, o papel de “filósofos”, de amadores e procuradores da verdade. Papel, aliás, que compartilham com todos os outros homens, porque é próprio do homem querer encontrar – não é um trocadilho – a verdadeira verdade do ser das coisas.

Nesse sentido, o seu papel pode desenvolver-se através de duas linhas de ação:

  1. fazer ver a força do argumento

De certa maneira, os formadores de opinião são os modernos demiurgos, que devem dar vida às idéias, torná-las compartilháveis para a maior parte da sociedade. È por isso necessário que saibam colocar as suas idéias no mercado aberto da opinião pública. Toda comunicação é uma comunicação de idéias; porém, como dizia Aristóteles, um é o terreno da teoria, onde o silogismo lógico tem o seu campo de ação, e outro, o terreno da prática, onde se estabelece a opinião. Isso não significa que a opinião careça de fundamento ou que, pelo fato de ser opinião não possa expressar a verdade. Significa que o caminho a ser trilhado é mais lento e cansativo. Significa que se torna imprescindível, se quisermos viver em sociedade, justificar as próprias opiniões. E, dessa forma, a opinião terá peso e sustentação quanto mais próxima se encontrar da verdade.

“A idéia é um xeque-mate à verdade. Quem quiser Ter idéias precisa antes dispor-se a querer a verdade e a aceitar as regras do jogo que a verdade impuser. Não cabe falar de idéias ou opiniões onde não se aceita uma instância que as regule, uma série de normas às quais se possa recorrer durante o debate. Essas normas são os princípios da cultura(…) O que eu quero dizer é que não há cultura onde não há norma às quais se possa recorrer(…) Não há cultura quando não há certas posições filosóficas às quais se possa apelar no debate(…) Não há cultura onde as polêmicas sobre estética não reconhecem a necessidade de justificar a obra de arte” (“La rebelión de las masas, p. 119).

2. dar os motivos das valorações

Torna-se necessário superar a divisão kantiana de que o “mundo dos fatos” é objetivo e verdadeiro e o “mundo dos juízos de valor” é subjetivo e arbitrário. Não há como olhar os fatos “neutra e imparcialmente”. Opinar, julgar, dar valor não é ser parcial nem arbitrário; é, muito simplesmente, o exercício da condição humana.

Para Comte, a exclusão dos juízos de valor seria o máximo de objetividade e, portanto, de verdade. Para Weber, as opiniões sobre o útil para o bem comum não passariam de posições subjetivas e, portanto, no mínimo incertas…O que encobrem essas posições é que o próprio do campo da praxe, do campo da política e da convivência social é a incerteza. Quando quem age e quem decide é o homem não é suficiente com limitar-se a descrever os fatos. É preciso –isso, aliás, é uma exigência da própria condição humana- posicionar-se. Não é suficiente narrar o holocausto; não basta descrever uma guerra; não se resolve nada transcrevendo os autos de um processo. É preciso dar os motivos, afirmar ou negar a justiça do ato. A neutralidade neste caso traria consigo uma diminuição do conhecimento da realidade.

É imperativo livrar-se da armadilha cientificista e objetivizadora, bem ao estilo de Bacon, para quem a garantia da verdade se centrava em “acabar com as disputas, controvérsias e diferenças de opinião” (Novum Organum, IV, 52), e reinstaurar a opinião aristotélica de que a política (entendendo por esse termo a convivência social, própria da “polis”) é “a eleição deliberada de uma vida comum” (Política, III, 9, 1280 a).

É preciso e, se quisermos oferecer uma alternativa à violência, é extremamente urgente recolocar a questão dos valores na praça pública, no mercado da opinião pública. Todos e cada um devem ter a possibilidade de expor seus motivos. Não se trata de superar ou de driblar uma possível censura; trata-se de quebrar os tabus que acorrentaram a opinião sobre o certo e o incerto, sobre o justo e o injusto, sobre o bem e o mal, sobre o essencial e o acidental. Não, como já se disse, com a atitude de quem se considera dono da verdade, mas com a atitude de quem acredita nos seus motivos e está disposto a ouvir os motivos contrários, para chegar, nas palavras de Habermas, a uma convicção: “Na época clássica, o âmbito do meramente provável era reservado à retórica, ao contrário do que acontecia com o âmbito em que a verdade dos enunciados era discutida teoricamente (…). Aceder racionalmente a uma decisão prática não era uma forçada teórica, nem algo meramente arbitrário, pelo contrário, era algo que devia estar motivado por um discurso convincente”

Conferência proferida no “III Master de Jornalismo para Editores” do Centro de Extensão Universitária. Maio 1999.

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