Torre del Oro iluminada à noite, às margens do GuadalquivirRafael RuizProfessor de História da Unifesp

Novas formas de abordar o ensino da história

Texto completo em KARNAL, L. (org) História na sala de aula. Conceitos, práticas e propostas, Editora Contexto, São Paulo, 2009

A quebra dos  modelos

O processo de conhecimento é a grande aventura e o grande desafio que o educador enfrenta quando prepara as suas aulas e quando as desenvolve com os seus alunos.

É dentro dessa perspectiva que serão feitas as considerações aqui apresentadas, partindo de uma pergunta simples de se fazer e difícil de ser respondida: qual é o modelo que devemos procurar como historiadores e como professores de História?

Partindo de uma conferência proferida por François Hartog, publicada em 1996, poderíamos dizer que houve três modos de entender a História e o papel do historiador.

O modelo clássico, inaugurado por Tucídides e Cícero, quando entendiam a História como “magistra vitae”, uma velha mestra que, alecionando-nos com os seus exemplos do passado poderiam preparar nosso caminho no futuro.

Esse modelo histórico predominou com altos e baixos até a metade do século XVIII, quando a Revolução na França e o Iluminismo na Alemanha exigiram uma nova conceituação. Essa nova conceituação carregava consigo a descoberta da História como processo.

Um processo que era, ao mesmo tempo, progressivo e teleológico. A história seria uma “história do futuro”, como o próprio Chateaubriand afirmava: “eu escrevia história antiga, e a história moderna estava a bater à minha porta”.

Chateaubriand estava se referindo ao fato de que pretendia escrever história precisamente no momento em que se estava dando a Revolução Francesa. “Gritei-lhe em vão: Espera, já vou. Ela passava ao estrondo do canhão, levando três gerações de reis”, completava Chateaubriand.

Por outras palavras, o historiador estaria imerso no próprio tempo em que escrevia e, à medida em que escreve, tenta escrever sobre o passado, tentando vislumbrar o futuro, tentando entender a Revolução e prever, simultaneamente, o seu destino.

Um terceiro modelo surgiu no período entre guerras e, a partir do final da 2ª guerra mundial, o futuro começava a perder terreno à medida que o presente, e nada mais do que o presente, tornava-se importante. De certa forma, como afirmava Hartog na sua conferência, “o que temos experimentado no Ocidente ao longo do século XX é uma ênfase crescente no presente enquanto tal”.

Talvez o modelo mais conseguido deste novo tipo de historiador fosse Roquentin, o herói de Jean Paul Sartre, em “A Náusea”. Roquentin realizava as suas pesquisas sobre o marquês de Rollebon, uma figura do século XVIII, mas em determinado momento percebia que não podia mais realizar esse trabalho; não podia porque o passado não existia; e não existia porque o que não estava presente não existia.

Esse mesmo modelo – o presente -, essa mesma percepção é que configurou o Maio francês de 68 quando os slogans gritavam “queremos tudo já” ou “esqueça-se o passado”.

Portanto, até os começos dos anos 80, tínhamos três linhas de pensamento que configuravam a História: a história “mestra da vida”, voltada para o passado; a história teleológica, voltada para o futuro, e a história do presente, situada no hoje, aqui e agora. E, contudo, conforme Hartog afirmava, esses três modelos quebraram definitivamente e não dão mais conta da História.

 

            A procura de um novo modelo para a História

            O que mudou nesses últimos anos? por que esses modelos não dão mais conta da realidade histórica? Hartog defende a hipótese de que o ano de 1989, com a queda do muro de Berlim, simboliza o momento de quebra ou, pelo menos, o momento de mudança.

O que simboliza esse momento para o conhecimento histórico? Simboliza, nas palavras de Hartog, que “não é mais possível escrever história do ponto de vista do futuro e que o passado mesmo, e não apenas o futuro, tornou-se imprevisível ou mesmo opaco”.

E não é mais possível falar do futuro porque as velhas teorias deterministas, de uma história positiva, uma sucessão linear e progressiva não passavam de uma ilusão. Não é mais possível ver o passado porque, depois da queda do muro, é mais fácil perceber que há muitos pontos de vista convergindo sobre esse passado e narrando-o de formas muito diferentes.

Qual deveria ser, então, o novo modelo para a História? que perguntas deveríamos fazer ao nosso passado, ao nosso presente e ao nosso futuro? Qual poderá ser a tábua à qual nos possamos agarrar diante desse naufrágio dos vários modelos?

A resposta de Hartog lança uma luz penetrante para reorganizarmos nossa maneira de estudar e de ensinar a História. Diz ele que precisamos basear-nos sobre dois princípios:

  • edificar o próprio ponto de vista tão explicitamente quanto possível e
  • realizar sempre uma abordagem comparativa.

Trata-se, portanto, de ensinar aos alunos não a contemplar o “edifício da História” como algo já pronto, mas de ensinar-lhes a edificar o próprio edifício.

Até agora  a História era ensinada como se se tratasse de quadros já acabados. Cenas que eram apresentadas aos alunos como se fossem “slides”, para, a partir daí, tecer algumas considerações sobre como se chegou a essas mesmas cenas: o renascimento, os descobrimentos, a conquista, a reforma, a contra-reforma…E as suas conceituações paralelas, o individualismo, o desejo de expansão, os novos mercados, o extermínio das populações indígenas, o espírito protestante e o católico…

Ensinar a edificar o próprio ponto de vista não significa ensinar as soluções, nem significa mostrar aonde se chegou num determinado momento histórico, nem sequer significa dar algumas explicações sobre como e por quê se chegou naquele ponto. Isso é importante, mas, como ressalta Hartog, hoje já não é suficiente.

Ensinar a edificar o próprio ponto de vista histórico significa ensinar a construir conceitos e aplicá-los diante das variadas situações e problemas; significa ensinar a selecionar, relacionar e interpretar dados e informações de maneira a ter uma maior compreensão da realidade que estiver sendo estudada; ensinar a construir argumentos que permitam explicar a si próprios e aos outros, de maneira convincente, a apreensão e compreensão da situação histórica; significa, enfim, ensinar a ter uma percepção o mais abrangente possível da condição humana, nas mais diferentes culturas e diante dos mais variados problemas.

O nosso desafio, portanto, consiste não em saber se é possível fazer isso ensinando História, mas em responder positivamente, com um método adequado, à pergunta sobre como é possível fazer isso, ensinando História.

 

Um novo método: História e Literatura

Se, conforme dizia Hartog, a forma mais acertada para construir o próprio ponto de vista seria adotar uma abordagem comparativa, a Literatura poderá ajudar-nos, e muito, a elaborar essa abordagem.

Mais do que elaborar um arrazoado argumentativo sobre este ponto, parece-me mais oportuno mostrar através de alguns exemplos da Literatura como se pode construir um novo modelo para ensinar História.

  1. a) Ítalo Calvino e o método histórico

Começando pela própria questão do “método”. Como se dá o acesso à realidade? O que se pode fazer perante um documento, perante um objeto material, se não soubermos formular a pergunta acertada, aquela que precisa ser feita?

Para ter uma boa compreensão do que estamos analisando é preciso saber o que se está procurando; é imprescindível, para o Historiador, ter uma atitude ativa, inquisitiva, que o leve a determinar previamente a pergunta que focalize o seu olhar sobre o documento, sobre o período que está estudando.

É isso que Ítalo Calvino procura nos lembrar no seu livro Palomar. Uma das primeiras dificuldades que encontra Palomar na sua tentativa de conhecer o mundo é a dificuldade para “isolar o objeto a ser conhecido”.

Enquanto contempla o mar e procura analisar uma onda, percebe que “não se pode observar uma onda sem levar em conta os aspectos complexos que concorrem para formá-la e aqueles também complexos a que essa dá ensejo” (p. 8). Há uma dificuldade inerente à realidade, que dificilmente Palomar consegue superar. A realidade não se deixa objetivizar. No momento em que a objetivizamos, destruímos seu ser em movimento, real, e tranformamo-la numa peça de museu; objetiva, sim, mas já não mais real. É uma realidade mumificada.

Palomar tenta “limitar seu campo de observação” (p. 9). É como se houvesse realidade demais para ele. Tanta realidade que se torna impossível estudá-la atenta e objetivamente. De certa forma, o que a personagem de Calvino está tentando é fazer, como o historiador, um recorte da realidade. Um recorte no espaço e no tempo para, assim, poder debruçar-se sobre esse objeto produzido.

Palomar tenta recortar “um quadrado de, digamos, dez metros de praia por dez metros de mar, (para) poder levantar um inventário de todos os movimentos de ondas que ali se repetem com frequência variada dentro de um dado intervalo de tempo” (p.9).

Mas não é tarefa fácil. O mar não se deixa circunscrever dentro desse espaço recortado por Palomar. E pior, o próprio Palomar não consegue prestar atenção apenas àqueles aspectos previamente demarcados por ele. É como se a realidade a ser estudada puxasse do investigador continuamente para outros aspectos e parcelas daquela mesma realidade que ficam para muito além do recorte estabelecido… “Prestar atenção em um aspecto faz com que este salte para o primeiro plano, invadindo o quadro(…).  Além do mais nesse entrecruzar-se de cristas diversamente orientadas o desenho de conjunto se torna fragmentado em espços quadrados que afloram e se desvanecem” (p. 10).

O historiador, tal como Palomar, na sua ânsia de conhecer a realidade histórica e defrontando-se com as mesmas dificuldades que o herói de Calvino encontra na sua tarefa, deixa-se levar pela mão de Palomar à conclusão de que precisa de um método.

Palomar decidiu optar por um modelo “cartesiano”, racionalista, “o mais perfeito, lógico, geométrico possível” (p. 97). Esse modelo traz a vantagem de ter sido sistematizado por um filósofo da categoria de Descartes e carrega em si toda a força e a tranquilidade para o espírito inquisidor do investigador de garantir a certeza e a objetividade dos resultados.

É um modelo que foi sendo alinhavado na Europa já nos começos do Renascimento. Físicos, astrônomos, artistas, arquitetos, mesmo até políticos e homens de Corte, foram procurar na Natureza as leis objetivas que mostrassem as bases estruturais do método.

Tratava-se, então, de “conseguir ter presente por um lado a realidade informe e demente da convivência humana, que só gera monstruosidades e desastres e, por outro lado, um modelo de organismo social perfeito, desenhado com linhas nitidamente traçadas, retas e círculos e elipses, paralelogramas de forças, diagramas com abscissas e ordenadas” (p. 97).

O modelo pronto e acabado não é patrimônio exclusivo de Palomar, nem de muitos cientistas e pesquisadores. Foi assim, por exemplo, que os espanhóis se aproximaram da América: com um modelo de cidade, um modelo de rei, um modelo de súdito, um modelo de “república e polícia”, como eles próprios gostavam de repetir enquanto olhavam para os indígenas e levavam as mãos à cabeça afirmando que viviam como brutos, sem um mínimo de civilidade.

O problema do modelo é que, para ser modelo, tem que “funcionar com perfeição; ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona e que se esfrangalha por todos os lados” (p. 98). Mas Palomar, como os espanhóis à época da Conquista e como, curiosamente, o próprio historiador tantas vezes, não desiste e não será por isso que ele vai deixar de lado o seu modelo. Se é assim que as coisas se passam, “resta apenas obrigar a realidade a adquirir a forma do modelo, por bem ou por mal” (p. 98).

A tarefa não resultou fácil para Palomar; nem para os espanhóis; nem para os historiadores. A realidade recusava-se a adaptar-se ao método. Calvino comenta que sua personagem bem que tentou, procurando desconsiderar tudo aquilo que “sobrava” da realidade: “todas as lacerações e contorções e compressões que a realidade humana deve sofrer para identificar-se com o modelo deviam ser consideradas acidentes momentâneos e irrelevantes” (p. 98).

Ítalo Calvino ajuda-nos a concluir que a realidade é, de fato, inabarcável. Mas nem por isso o seu personagem deixa de querer entendê-la. A solução parece encontrar-se na escolha de um ponto de vista. É a partir de uma determinada perspectiva que posso construir o meu relato; é a partir de um ponto de vista previamente estabelecido que posso aproximar-me da realidade.

 

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