O Quixote de Cervantes e a Espanha do século XVII
Publicado em História Viva
Quando Miguel de Cervantes Saavedra publicou a sua imortal obra El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, em duas partes, a primeira, em 1605, e a segunda, em 1615, já tinha transcorrido mais de um século desde que a Espanha começara a conquista e a colonização da América.
Miguel de Cervantes foi o quarto de sete irmãos. Sabe-se que, em 1569, Cevantes fugiu até Roma para livrar-se de um processo, no qual foi condenado à revelia, provocado por uma briga. Foi na Itália que acabou ingressando como soldado e embarcou na galé Marquesa, que no dia 7 de outubro de 1571, participou da batalha de Lepanto, formando parte da Armada cristã contra os turcos. E foi lá onde a sua mão esquerda ficou anquilosada. Miguel de Cervantes deixará constância dessa sua experiência bélica precisamente no Prólogo ao Leitor, da Segunda Parte do Quixote: “O que não pude deixar de sentir foi que me apodasse de manco e de velho, como se estivesse na minha mão demorar o tempo, que parasse para mim, ou como se tivesse saído manco de alguma rixa de taberna, e não do mais nobre feito que viram os séculos passados e presentes, e esperam ver os vindouros”.
Contudo, mesmo tendo sido uma batalha ganha pelos cristãos, Cervantes foi feito prisioneiro e passou cinco anos de cativeiro na cidade de Argel. Na Primeira Parte, Cervantes dedica três longos capítulos (do 39 ao 41) a contar a história de um cativo cristão, preso em Argel, que finalmente consegue voltar para a Espanha e acaba encontrando-se com Dom Quixote e Sancho, e mais algumas personagens, a quem conta detalhadamente a sua história.
Entre os anos de 1587 a 1600, o autor fixou a sua residência em Sevilla, que, naquela altura, era o porto de entrada e saída dos navios para a América. Foi lá que conseguiu um trabalho mais ou menos modesto, de provedor de mercadorias para os navios, e lá que, depois, cuidou dos impostos da alfândega. Não se sabe bem como desempenhou as suas funções, mas o fato é que foi preso por duas vezes, uma, em 1592, e outra, em 1597. Seriam detalhes mais ou menos apenas curiosos, se não fosse o fato de que o próprio Cervantes disse que o Quixote foi gerado no cárcere.
O Privilégio Real para a edição foi dado em setembro de 1604 e, em 1605, via a luz a Primeira Parte de El ingenioso hidalgo Don Quijote de la Mancha, compuesto por Miguel de Cervantes Saavedra. A continuação do Ingenioso hidalgo, publicada em 1615, pelo mesmo editor e na mesma oficina de impressão, traz o título de Segunda Parte del ingenioso caballero Don Quijote de la Mancha, por Miguel de Cervantes Saavedra, autor de su primera parte. Antes de 1640, a obra foi re-impressa quatro ou cinco vezes e, em 1662, foi editada em Bruxelas. Em Londres e em Salisbury foi editado em 1738 e 1781.
A trama das duas partes é relativamente simples: um fidalgo, bastante modesto e já com alguns anos em cima, depois de ler muitos livros de cavalaria, ficou maluco e começou a acreditar que se tornou um “cavaleiro andante” e saiu, por três vezes, da sua aldeia natal em busca de aventuras, tentando consertar o mundo, até que, finalmente, retornou à sua casa, ficou doente, recuperou o juízo e morreu cristãmente. Mas, sem dúvida, a obra clássica de Cervantes pode ser lida de muitas formas. Mais do que tentar expor e analisar as diferentes interpretações que foram feitas do Quixote, peço licença para contar como fiz as minhas leituras do Ingenioso hidalgo.
Li o Quixote três vezes, de cabo a rabo, e voltei a ler alguns trechos ou capítulos conforme as necessidades ou circunstâncias do momento. Da primeira vez, quando ainda fazia colegial, na Espanha, fiquei mais perplexo do que admirado. Confesso que não o entendi. Não a obra, mas a personagem: como era possível que alguém ficasse tão maluco que confundisse moinhos de ventos com gigantes de carne e osso? como alguém poderia estar tão cego que não visse como a Aldonza Lorenzo real não era, de forma alguma, a doce Dulcinéia, que cheirava a âmbar derretido? como alguém, afinal, poderia ser tão insensato para sair por aí armado de cavaleiro medieval, com cavalo e lança, e tentar consertar los entuertos, tudo aquilo que estava errado? Não o entendi. E, por isso, ri.
Da segunda vez, estava cursando Direito na USP. Talvez porque já estivesse imbuído das ideias de justiça e de direito, e incorformado, como qualquer universitário, com o rumo que a sociedade estava tomando, ou porque lera o livro de Ihering sobre A luta pelo Direito…o fato é que amei o Quixote. Apaixonei-me por tudo o que ele representava. Como depois vim a ler num artigo de García Marques, o Quixote não acredita que a justiça, a ordem social, o progresso, sejam funções da autoridade, mas tarefa dos indivíduos. E lá me via eu, como o Quixote, fazendo de tudo para que a justiça fosse mais justa e a sociedade mais livre…
A terceira leitura foi feita quando já era professor universitário e tinha de explicar para os meus alunos quem era e que pretendia o Quixote. Nessa altura, comecei a ficar preocupado. Primeiro, porque gostara tanto do Quixote que não aceitava que, agora, começasse a ficar com medo dele. E, depois, porque começava a perceber coisas que não tinha sequer intuído das outras duas leituras. Chamava-me a atenção aquela advertência que fizera Cervantes quando, depois de vários episódios desastrosos, advertia que o ingenioso hidalgo “tinha isso para si: quantas coisas via, logo pelo ar as acomodava às suas desvairadas cavalarias e descaminhados sonhos”. Começava a ver que ao meu redor não havia apenas um Quixote, mas muitos: na Universidade, nos partidos políticos, no governo, nas famílias, nas mesas do bar tomando uma cerveja. De repente, muita gente tinha um modelo, o modelo, que consertaria o mundo. Bastava aplicar o modelo, e pronto! E, como depois vim a perceber por meio de Ítalo Calvino, “o modelo é por definição aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com perfeição; ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona e que se esfrangalha por todos os lados; portanto, resta apenas obrigá-la a adquirir a forma do modelo, por bem ou por mal”. E lembrei-me de Hamlet, escrito quase que no mesmo ano, que se queixava de que o mundo estivesse fora dos eixos, e não se conformava com o fato de que tivesse de ser ele quem o tivesse que consertar…
Não sei se contar as minhas leituras do Quixote pode animar ou não aos leitores desta Revista a ler a obra de Cervantes. Acredito que cada um lê a partir das suas próprias experiências e que, quando lemos, não conhecemos apenas as personagens que nos são apresentadas, mas conhecemo-nos a nós próprios. Vale a pena, sim, ler o Quixote. Tem muito a nos dizer. Não apenas sobre ele, o fidalgo da Mancha, mas sobre nós próprios. E só experimentar.