Hamlet: um personagem entre dois mundos
Publicado em História Viva
William Shakespeare (1564-1616) é um dos autores que melhor souberam captar e expressar o desconcerto do homem e da sociedade na passagem do mundo clássico para a Modernidade. Escrita entre 1599 e 1601, a tragédia #Hamlet# descortina perante nossos olhos um dos maiores dilemas do homem moderno: a angústia diante da decisão a tomar.
Temos tanto medo de errar, sentimo-nos tão perdidos diante de um sem fim de informações, que preferimos encontrar uma dica de algum manual, uma norma em algum código ou, simplesmente, algum tipo de receita pronta que nos garanta o acerto na hora de decidir… Como é fácil entender a figura de Hamlet quando o vemos angustiado e indeciso sobre qual caminho seguir.
O velho rei da Dinamarca acaba de morrer. Seu irmão, Cláudio, sob o pretexto de defender o país de uma possível invasão das forças norueguesas de Fortimbrás, casa-se com a viúva e assume o trono. Contudo, o espectro do rei aparece para o príncipe Hamlet à noite e revela que foi assassinado pelo próprio irmão, com o consentimento da esposa. O fantasma do monarca exige, então, que seu filho o vingue. Nesse momento o personagem se vê diante de um dilema: sua mãe e seu tio são assassinos, mas aparecem como inocentes e, portanto, como soberanos legítimos da Dinamarca. Qual será a verdade? O que o pai lhe conta ou o que as aparências indicam? Que decisão tomar?
Desde que Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreveu o seu #Príncipe#, não só a política, mas todo o espectro das relações humanas passaram a se basear nas aparências: “Os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos (…). Todos vêem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente” afirmou o pensador italiano.
Talvez por isso o problema crucial de #Hamlet# seja o famoso “Ser ou não ser. Eis a questão”. Não deixa de ser curioso que seja essa, e não outra, a pergunta que Hamlet se faz quando reflete sobre a atitude a tomar em relação à mãe e ao tio: por que #ser ou não ser# e não #fazer ou não fazer#? Afinal, a decisão que terá de tomar tem a ver com a ação.
Shakespeare encontra-se entre dois mundos: o clássico e o moderno. Para o mundo clássico a questão decisiva, mesmo na hora de agir, era sobre #o ser#, enquanto para o mundo moderno o que importa é #o fazer#. O que conta agora, como diria Maquiavel, não é ser honesto, mas parecer sê-lo: “disfarçar muito bem esta qualidade e ser bom simulador e dissimulador”. Hamlet sente que as coisas não são como parecem; que a sociedade na qual está vivendo é uma farsa, um faz-de-conta que pode ser resumido a pura retórica, frases e mais frases sem sentido.
Uma das conquistas da Modernidade foi reduzir tudo a discurso. Não temos mais nenhuma certeza sobre o #ser# das coisas, mas apenas sobre o que elas parecem a cada um ou, no máximo, sobre o que alguém falou sobre elas. Quando dois soldados se dirigem a Hamlet para levá-lo à Inglaterra e assassiná-lo no caminho, Hamlet lhes diz que “a Dinamarca é uma prisão”, ao que eles respondem: “Não achamos, senhor”. E com isso se resolve facilmente o problema.
A Modernidade nos fez acreditar que tudo pode ser resolvido desde que cada um faça o que bem entender: se eu penso de um jeito, está certo, e se ele pensa do jeito contrário, também está certo… Mas o que Hamlet quer saber é se a mãe e o tio #são# mesmo corruptos e assassinos, e não o que eles ou o resto da Dinamarca acham sobre o assunto.
A solução que o príncipe da Dinamarca encontrará tem raízes no mundo clássico, não no moderno. Ele acredita que há uma voz no homem que, “embora não tenha língua, expressa-se com outra e milagrosa voz: (…) a consciência do rei se trairá com a peça”. E para isso contrata atores para representar uma cena parecida com o possível assassinato do pai: “levarão os atores, diante do meu tio, algo de semelhante à morte do meu pai: vigiar-lhe-ei o olhar, sondá-lo-ei ao vivo: se se encolher… eu sei o rumo a seguir”.
A Modernidade não apenas alienou o trabalhador do fruto das suas mãos, mas conseguiu alienar a própria consciência do cidadão. Não queremos mais pensar, discutir e decidir sobre o que é certo fazer, basta-nos saber se está regulamentado em algum código, se há por perto um policial que nos vigie, se a multa é muito alta.
Como Dostoievski lembraria muitos anos depois, em #Os irmãos Karamazov#, “o homem prefere a paz e até mesmo a morte à liberdade de discernir entre o bem e o mal. Não há nada de mais sedutor do que o livre arbítrio, mas também nada de mais doloroso”. Enquanto isso, a questão central da peça de Shakespeare continua ressoando em nossos ouvidos: “Ser ou não ser. Eis a questão”. E Hamlet continua angustiado porque não lhe parece suficiente tomar uma decisão qualquer. Ele quer tomar a decisão certa.