Torre del Oro iluminada à noite, às margens do GuadalquivirRafael RuizProfessor de História da Unifesp

Reflexões no carnaval

Publicado no Correio Braziliense

 

            A festa do carnaval é uma festa de longa tradição católica. Parece que o significado mais provável do termo tenha a ver com um antigo costume, de muito tempo atrás, em que o povo católico, adentrando na quaresma, dispunha-se a jejuar e, especificamente, a deixar de comer carnes vermelhas até a Páscoa. Eram tempos em que a preocupação não era a saúde, nem o colesterol, mas pura e simplesmente fazer algum tipo de sacrifício.

O adeus à carne (em latim mais ou menos popular, carnem vale) comemorava-se com alguns dias de festa antes da quarta-feira de cinzas, início litúrgico da quaresma. Foi uma resposta que satisfez a minha curiosidade juvenil. Mas sempre me perguntei como se chegou daí até os ovos de Páscoa.

E um dia, lendo um livro de Regine Pernoud, uma professora francesa, especialista em História Medieval, fiquei sabendo que o povo católico, além de não comer carne durante a quaresma, também deixava de comer ovos às quartas e sextas, e levavam-nos até a paróquia onde, no dia da Páscoa, eram distribuídos entre os pobres da cidade…. Pensei, então, que já não se tratava simplesmente de fazer um sacrifício, mas de sacrificar-se por alguém, concretamente pelos mais necessitados. E as minhas ideias sobre a Idade Média começaram a mudar de lugar.

Por que me veio tudo isto na véspera deste carnaval? Porque me parece que estamos nos esquecendo do sentido das coisas. Já não sabemos mais por quê vivemos como vivemos, por quê fazemos o que fazemos e, inclusive, por quê queremos o que queremos. Ou melhor, sabemos, sim. Muitas vezes já perguntei a muita gente jovem, alguns recém ingressados na Universidade e muitos outros recém-formados, sobre o que é que queriam da vida. A resposta -nem sempre, mas sim muitas vezes- foi: não sei bem, mas que seja algo que me dê muito dinheiro e que não me dê muito esforço.

Tem um livro de J.D. Salinger que, de certa forma, divide radicalmente as pessoas. Tem gente que ama de paixão e tem gente que odeia profundamente o livro. Trata-se de O apanhador no campo de centeio. Penso que muitos conhecem a trama. Um garoto de dezesseis anos, Holden, larga a escola -de onde, aliás, iria ser expulso na semana seguinte- e fica perambulando pela cidade durante um fim de semana. Tem um momento -meio hilário, meio sério (sério se pensarmos devagar na questão que o Holden faz) – em que pergunta a um taxista se ele sabe para onde vão os patos, no inverno, quando o lago do Central Park fica gelado.

Evidentemente, o taxista não consegue entender nem responder nada. Mas a questão é séria. Como é que os patos sabem para onde ir quando o meio em que vivem é hostil, frio, gelado? Essa é a pergunta que é feita, mas a outra pergunta, que não é feita, e que inquieta profundamente ao Holden é: como eu sei para onde ir quando toda uma sociedade é vazia, sem sentido e está me asfixiando por completo? Qual é o sentido da vida? Todo o esforço que me é exigido – não esqueçamos que o Holden está a ponto de entrar na Universidade – é apenas para ganhar dinheiro e posição social?

A questão de Holden não é uma questão à toa. Principalmente quando encontramos tanta gente que parece não ter outra preocupação a não ser a de visitar “os cem lugares imperdíveis”, experimentar os “cem pratos inigualáveis”, curtir as “melhores cem músicas da História”, assistir aos “melhores cem filmes dos últimos cem anos”…. Parece-me que a era digital facilitou muito a vida de todos nós, mas por outro lado também parece estar provocando uma sutil transformação revolucionária, nem sempre perceptível. A revolução do “selfie”: o que importa é “eu mesmo”. Eu em tal lugar, eu comendo aquele prato, eu curtindo aquela praia…. Olhe bem para o meu “selfie” que acabo de postar. Gostou?

O filósofo espanhol Julián Marías insistiu ao longo da sua vida em que a vida humana é -deveria ser- vectorial. Ela só é vida plena e digna quando está dirigida para fora de si, como um vetor em direção aos outros. Mas como seria possível entender o que isso poderia significar quando estamos tão ocupados em tirar uma “selfie” do último restaurante onde comemos, do último paraíso em que estivemos, da última música que curtimos e, ainda por cima, faltam-nos ainda mais trinta ou quarenta lugares, e pratos, e filmes que curtir?

Holden, preocupado em saber para onde iam os patos, tinha um sonho. Estava em cima de um outeiro, desde onde avistava um grande número de garotos e garotas brincando despreocupadamente num campo de centeio. Mas o que ele via e a criançada não percebia é que estavam brincando à beira de um abismo e, em qualquer momento, poderiam cair…E, então, o sonho dele era poder ser o apanhador -que nem no jogo de beisebol- que se esforçava o mais que podia para apanhar as crianças no meio da sua queda…

A personagem de Holden foi escrita bem antes da era digital. A sua vida, mesmo que um pouco confusa e caótica como de qualquer adolescente, era um vetor aberto para os outros. Não muito diferente daquelas pessoas -que foram muitos e durante muito tempo ao longo da história ocidental- que deixavam de comer ovo nas quartas e sextas feiras da quaresma para que os pobres e indigentes tivessem o que comer.

A revolução sutil da “era digital” está transformando o vetor das nossas vidas na quadratura do círculo.

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