Torre del Oro iluminada à noite, às margens do GuadalquivirRafael RuizProfessor de História da Unifesp

Um bom começo de ano

Neste Natal chegou-me nas mãos, de forma mais ou menos inesperada, um livrinho da autora italiana Susanna Tamaro, editado recentemente pela Rocco, De volta à Casa. Inesperada porque pensei que era um romance, mas não. Trata-se de uma coleção de duas conferências e uma entrevista, em que, de forma mais ou menos autobiográfica, Tamaro tece algumas considerações sobre este mundo nosso que nos tocou viver.

E logo na primeira conferência aponta para a incapacidade de maravilhar-nos perante as coisas da vida, desde as mais simples até as mais extraordinárias e comenta que dá a impressão de todos estarmos sofrendo um processo de anestesia: uma incapacidade profunda de não nos surpreendermos mais perante as maravilhas que nos rodeiam.

Susanna Tamaro atribui essa anestesia ao fato de vivermos num mundo onde todas as questões já têm uma resposta certa, um mundo onde cada coisa está explicada segundo leis precisas de causa e efeito e onde cada ação provoca uma reação e a reação, por sua vez, provoca uma nova ação. Num mundo assim, que parece ser o nosso, concluía a autora italiana, não há mais espaço nem para o mistério nem para a surpresa.

Lendo os seus argumentos, pensei na infinita série de “manuais”, “tutoriais”, “códigos de conduta” e tantos outros receituários sobre como proceder, que podemos encontrar com apenas um clique na internet. Dá a impressão que já está tudo pronto e respondido e que, se você ainda não sabe como fazer algo, é porque ou você ainda não leu ou, se leu, então é porque você é pouco inteligente, “porque está tudo lá. Basta você seguir o que está escrito e pronto”.

Parece-me que é precisamente aí onde radica o problema dessa anestesia que Tamaro lamentava. O homem moderno acabou dominando um enorme número de técnicas. Não há nada praticamente que não esteja reduzido a colocar em prática uma série de técnicas infalíveis. Desde como fazer um bolo que todos vão adorar, até como convencer alguém, mesmo sem ter razão, passando por como comportar-se num primeiro encontro com outra pessoa, sem ser chato ou inconveniente, ou como apresentar-se em público. Tudo já está previsto detalhadamente, passo por passo, mesmo antes da ação. E com isso o que conseguimos é ter um homem perito em técnicas e analfabeto em virtudes. Somos excessivamente técnicos e minimamente virtuosos.

Aristóteles dizia que era a ação que transformava o homem. Mas não qualquer ação. Fazer por fazer, fazer porque é assim que está previsto, fazer porque, se não fizer, vai dar problema, não nos transforma por dentro. O que nos transforma interiormente é aquela ação que fazemos porque queremos fazê-la, porque, apesar das possíveis dificuldades -talvez porque fosse mais fácil e sossegado fazer o contrário- decidimos voluntariamente -mesmo que, às vezes, dolorosamente- fazer aquilo. Se for bom, transformar-nos-emos em pessoas melhores e, se for ruim, seremos um pouco piores. É a mesma diferença que percebemos entre um pianista que toca tecnicamente bem o piano e alguém que é um virtuose. O virtuose tem a música entranhada nos mais íntimo de si. É realmente um bom pianista.

Pensava em tudo isto depois de ter ouvido uma notícia acontecida durante o Réveillon em Copacabana. Furtaram a carteira de um advogado, com documentos, cartões e R$ 1500,00. Dois dias depois, ligaram da Delegacia de polícia para ele dizendo que a sua carteira tinha aparecido, mas sem o dinheiro. Já foi bom. Pelo menos -pensei- o homem recuperou seus documentos e seus cartões sem terem sido usados. Mas outros dois dias depois, quando chegou ao seu escritório, encontrou um envelope, com uma carta dentro e R$1450,00. A carta estava assinada -Fábio era seu nome- e pedia perdão pelo que tinha feito, porque -dizia- fazia quatro dias que não conseguia dormir. E acrescentava que faltavam R$ 50,00, porque, na passagem de ano, comprou uma garrafa de champanha para a sua mãe. Ao ouvir a notícia fiquei surpreso. Surpreso e maravilhado. Pensei, parafraseando Primo Levi, é isto um homem? E disse para mim mesmo com alegria e esperança: sim, é isso que é um homem. E o seu nome é Fábio.

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