Torre del Oro iluminada à noite, às margens do GuadalquivirRafael RuizProfessor de História da Unifesp

Quando as mãos estão manchadas

  • Publicado no Correio Braziliense

Macbeth, a conhecida tragédia de Shakespeare, foi escrita no começo do século XVII e publicada em 1623. A peça começa de uma forma um tanto estranha -num lugar deserto, onde se reúnem três feiticeiras-, contudo a fala principal de todas as três paira ainda sobre os nossos dias.

Há várias traduções dessa fala: o belo é feio e o feio é belo. Ou, então, o bem e o mal é tudo igual. Ou, ainda, o belo é podre e o podre, belo sabe ser. De qualquer forma, o que podemos entender daí -pelo menos, o que pode entender qualquer um, sem grandes disquisições de crítica literária ou filosófica- é aquele lugar comum que se resume na sentença de que tudo é relativo. Nada tão atual como uma afirmação como essa!

            Talvez uma das maiores façanhas produzidas pelo pensamento crítico moderno tenha sido precisamente essa: fica muito difícil hoje em dia saber do que é que estamos falando quando falamos de conceitos como “bom” e “mau”, “belo” ou “feio”, “certo” ou “errado”. E talvez por isso a peça dramática possa nos servir para saber do que é que estamos mesmo falando.

Macbeth parace realmente um homem bom. Fiel ao seu Rei e à sua pátria, corajoso, honesto e leal. Contudo, depois de se encontrar precisamente com as três feiticeiras que misturaram o belo e o feio, o certo e o errado no mesmo caldeirão, acaba assombrando ao leitor (ou ao espectador) com as vilezas, atrocidades e crimes que passa a cometer.

É como se Shakespeare retornasse à tradição aristotélica para alertar-nos a nós, precisamente a nós, de que a ética e as virtudes não se ensinam nas aulas nem se recolhem em códigos de conduta ou em conceitos abstratos que, na maior parte das vezes, servem apenas para deixar-nos cada vez mais confusos. A ética -as virtudes adequadas a um Rei -dirá Malcolm a Macduff- tais como a justiça, veracidade, temperança, equilíbrio, generosidade, perseverança, compaixão, humildade, devoção, paciência, coragem, firmeza…- aprende-se vendo. Daí a importância do teatro, tanto para Aristóteles quanto para Shakespeare.

No teatro, como na vida, vemos as pessoas praticarem atos. É por isso que as peças escritas estão divididas em Atos, e não em Capítulos. Vemos como Macbeth fica cego perante a sua imensa ambição de Poder. Cego ao ponto de atraiçoar não só ao seu Rei e ao seu amigo, mas inclusive de matá-los. Talvez, numa reunião filosófica, poderíamos ficar discutindo sobre os limites, as condições e as circunstâncias em que seria lícito ou não matar. Contudo, no teatro, como também na vida, o bom é que a gente vê. E porque a gente vê, assusta-se com a dimensão e a imensidade da maldade. Como é possível alguém fazer uma coisa dessas!?

E, contudo, como se queixa Lady Macbeth: o que está feito, está feito, e não tem volta. Não se trata mais de discussões teóricas, nem retóricas, não se está falando sobre o significado ou o alcance do que seria o certo e o errado. Matar daquele jeito é errado. Não parece que possa haver muitas dúvidas sobre isso. Assim como trair daquele jeito e tomar o poder daquele jeito. E, porque somos humanos, podemos, então, conforme Aristóteles, usar da analogia e continuar pensando: e roubar daquele jeito também é errado. E mentir daquele jeito também. E desviar dinheiro daquele jeito também. Também isso está errado.

E, se não for assim, se não tivermos a capacidade de indignar-nos, de revoltar-nos e de enjoar-nos com a vileza, a mentira, a desonestidade e a corrupção, então, como o próprio Macbeth insinua, a partir deste instante, nada há mais que seja sério no destino humano: tudo é brinquedo; a glória e a graça morreram; o vinho da vida foi derramado e no fundo da adega só sobraram as fezes!…

            São palavras fortes. Mas essa é a função do teatro e das suas falas: tornam os conceitos abstratos de carne e osso, como diria Ortega y Gasset. Vemos, qualquer um de nós pode ver e sentir o cheiro do vinho e das fezes; qualquer um de nós pode ficar angustiado diante do que vemos que acontece e perguntar-se “então, será assim mesmo? não há mais nada de sério?” “será mesmo que, como conclui Macbeth, a vida não é mais do que uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria e vazia de significado?

Shakespeare escreve a cavalo entre a tradição clássica e os tempos modernos. Num momento em que as fronteiras entre o certo e o errado eram facilmente percebidas. É por isso que Lady Macbeth pode irromper no palco, esfregando uma vez e outra as mãos, dizendo desesperadamente: Mas será que estas mãos nunca ficarão limpas? Há aqui sempre um cheiro de sangue!… Todos os perfumes da Arábia não purificariam esta pequena mão…É o remorso. A consciência da culpa.

Para o crime sempre pode -e deve- haver castigo. Mas para que haja consciência da culpa é preciso perceber que o certo é certo e que o errado está errado. Quando não é assim, se não se alienou já há muito tempo a consciência, pelo menos há muito que estará sendo sistematicamente asfixiada.

Os nossos políticos deveriam ler mais Shakespeare.

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