Quando a questão é “ser ou não ser”
Publicado no Correio Braziliense
Shakespeare é um dos autores que melhor soube captar e expressar o desconcerto do homem e da sociedade moderna. Um desconcerto que poderia ser resumido naquela questão que já faz parte do patrimônio comum da Humanidade: ser ou não ser. Eis a questão.
A pergunta de Hamlet é extremamente intrigante. O Príncipe da Dinamarca estava preocupado com a ação que iria realizar. Queria saber se era certo ou não o que pretendia fazer. Então, por que a questão seria “ser ou não ser” e não “fazer ou não fazer”? Afinal, a decisão que terá de tomar tem a ver com a ação, com uma conduta a ser seguida.
Shakespeare encontrava-se entre dois mundos: o clássico e o moderno. Para o mundo clássico a questão decisiva, mesmo na hora de agir, era sobre o ser, enquanto que para o mundo moderno o que importa é o fazer. O que importa agora, como diria Maquiavel, não é ser honesto, mas apenas conseguir parecê-lo: disfarçar muito bem esta qualidade e ser bom simulador e dissimulador.
Como todo grande escritor, Shakespeare parece intuir o verdadeiro problema moral em que se debaterá o mundo moderno, o nosso mundo. Desde que Maquiavel escreveu o seu Príncipe, não só a política, mas todo o espectro das relações humanas passaram a ser baseadas nas aparências:…os homens, em geral, julgam mais pelos olhos do que pelas mãos(…) Todos vêem o que tu pareces, mas poucos o que és realmente…”.
A partir desse momento, fomos construindo uma realidade social onde o verdadeiramente importante seriam as aparências, e não mais aquilo que somos. Criamos os papéis e, com eles, passamos a viver como personagens, e não mais como pessoas. Personagens que devem decorar seus scripts e não mais pessoas, com a possibilidade de agir da forma certa ou da forma errada. Personagens que não tem mais nada a não ser os seus discursos, e não pessoas que, como Hamlet, encontram-se na difícil situação de se manterem honestos ou se transformarem em corruptos.
O perigo? o perigo, como muito bem captou Hamlet na Dinamarca, é que, a partir de agora, as coisas não são como parecem; que a sociedade na qual está vivendo é uma farsa, um teatro, um faz-de-conta onde as palavras, as falas das personagens encobrem as verdadeiras intenções e os atos mais vis. Quando o velho Polônio, pai da Ofélia, pergunta-lhe o que andava lendo, Hamlet respondeu: Palavras, palavras, palavras.
Uma das conquistas do pensamento moderno foi a de ter reduzido tudo a discurso. Não temos mais nenhuma certeza nem preocupação sobre o ser das coisas, mas apenas sobre o que elas nos parecem a cada um ou, no máximo, só temos certeza sobre o que alguém falou sobre elas. Quando dois soldados se dirigem a Hamlet para levá-lo à Inglaterra e assassiná-lo no caminho, Hamlet lhes diz que a Dinamarca é uma prisão, ao qual respondem: Não achamos, senhor. E com isso se resolveu facilmente o problema… A Modernidade nos fez acreditar que tudo pode ser resolvido desde que cada um faça o que bem entender e tenha um bom discurso que justifique as suas ações: se eu penso de um jeito, está certo, e se ele pensa do jeito contrário, também está certo. Se eu robo, e ele também robou, então os dois estamos certos…
Mas o que Hamlet quer saber, o que faz que não durma de noite nem fique tranquilo durante o dia é se a sua mãe e o seu tio são mesmo uns corruptos e assasinos e não o que eles ou o resto da Dinamarca acham sobre o assunto. E o que nós queremos mesmo saber, o que faz que fiquemos angustiados e preocupados durante todos os dias e todas as noites é se aqueles que estão no Poder e que, por isso mesmo nos representam, são mesmo virtuosos ou corruptos. Não se eles parecem, mas se, de fato, são.
Hannah Arendt – tem um filme magnífico sobre os momentos cruciais da sua vida acompanhando o caso Eichmann em Jerusalém – se perguntava, contemplando o horror do nazismo e dos campos de extermínio, como foi possível que a nossa sociedade tivesse podido criar pessoas que cometeram verdadeiras atrocidades e, depois, pudessem voltar para casa tranquilos e satisfeitos sem nenhum remorso. Que tipo de sociedade é a nossa que criou condições para tamanha alienação da consciência!? Todo homem, qualquer um de nós, pode, precisamente porque é humano e porque quer continuar sendo humano, fazer a mesma pergunta de Hamlet e dizer: eu não sou como eles foram. E eu não faço o que eles fizeram. Só assim poderemos desconstruir a banalidade do mal.